Páginas

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Sniper Americano - Crítica

Nota: 9

Título: Sniper Americano (American Sniper)
Gênero: Drama, Biografia, Guerra
Nacionalidade: EUA
Ano de produção: 2014
Estreia no Brasil: 19 de fevereiro de 2015
Duração: 133 minutos
Classificação indicativa: 16 anos
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Jason Dean Hall
Elenco: Bradley Cooper, Sienna Miller, Luke Grimes, Jake McDorman, Cory Hardrict, Navid Negahblan, Keir O'Donnell, Kyle Gallner, Brian Hallisay, Sam Jaeger, Mido Hamada


     O grande interesse de Clint Eastwood pela política não é novidade para ninguém. Membro do Partido Republicano desde 1951, o cineasta foi prefeito da pequena cidade Carmel-by-the-Sea, ficando no cargo de 1986 até 1988. Apesar de ser conhecido pelos ideais conservadores, o ator e diretor participou de entrevistas nos últimos anos afirmando admirar a filosofia do Libertarismo, da qual teria se tornado adepto. É importante entender o que esse grande gênio da sétima arte pensa sobre os sistemas políticos para a compreensão de toda a polêmica que envolve Sniper Americano, indicado a seis categorias no Oscar.

     Para analisar de forma mais correta uma produção, o melhor é não criar grandes expectativas, mas é impossível ver o título e tema do longa sem esperar por um dos filmes mais patrióticos dos últimos tempos. A obra surpreendeu nas bilheterias americanas, tendo melhores números do que todos os outros nomeados a Melhor Filme juntos. Porém, logo vieram as críticas, acusando o diretor Clint Eastwood e o roteirista Jason Dean Hall de apresentar uma visão rasa e mal desenvolvida do assunto que trata. Com a chegada aos cinemas brasileiros essa semana, todos irão tirar suas próprias conclusões, mas uma coisa é certa: entra facilmente na lista de melhores do ano.

     Com base no livro American Sniper: The Autobiography of the Most Lethal Sniper in U.S. Military Story, o roteiro fala sobre a história real de Chris Kyle (Bradley Cooper), atirador de elite que, oficialmente, eliminou cerca de 160 inimigos em batalha, embora muitos afirmem que foram mais de 200. Passando pela rígida criação no Texas, o casamento com Taya (Sienna Miller) e a ida para o Iraque no período da guerra ao terror, toda a vida do militar é representada.

     Logo no início, já é possível entender um pouco da personalidade do protagonista. O pai do personagem explica que, para a família, as pessoas são divididas em três tipos: os cordeiros, inocentes que sofrem com as injustiças, lobos, os que fazem o mal, e cães pastores, protetores dos fracos e oprimidos. Fica óbvio que Chris Kyle vai escolher o último grupo para se juntar. Seu patriotismo fica cada vez mais perceptível com o tempo. Ao se alistar no exército, ele já tinha 30 anos, o que o leva a ser considerado um dos grandes responsáveis por seu grupo quando chega no Iraque pela primeira vez para combater terroristas.

     Nesse ponto, começa a grande polêmica envolvendo a visão limitada da obra em relação aos conflitos iniciados após o 11 de Setembro. Embora os EUA sejam retratados como os grandes heróis da história, é importante lembrar que estamos vendo os acontecimentos a partir de um homem apaixonado pelo seu país. Não se pode negar que, inicialmente, Kyle é desenvolvido apenas como um homem em defesa da nação.

     Porém, o sentimento patriótico vai sendo deixado de lado conforme os horrores da guerra começam a aparecer. O instinto de sobrevivência passa a dominar todos e a verdadeira motivação das equipes de soldados se torna salvar os colegas que estão ao seu lado. O filme apresenta alguns personagens que não concordam com os acontecimentos do campo de batalha, criando conflito com os ideias do protagonista. Não surgem questionamentos mais aprofundados sobre o assunto, mas dizer que a obra cai totalmente nos esteriótipos do tema é um exagero.

     Com o cenário apresentado, Chris Kyle começa a ser melhor desenvolvido, em grande parte graças ao papel de Sienna Miller, em ótima atuação. A esposa fica em seu país tendo que cuidar dos filhos e viver com o medo de perder o marido a qualquer momento, além de ter que lidar com os problemas psicológicos desse quando volta ao lar. A partir dela, podemos ter uma noção mais humana de toda a situação.

     Clint Eastwood é quase sinônimo de qualidade. Em Sniper Americano, o diretor mostra que continua em plena forma aos 84 anos de idade, criando situações de tensão como poucos conseguem. O espectador sente facilmente a pressão que um atirador de elite sofre, tendo que conviver com decisões morais ao precisar decidir que alvos eliminar. Além disso, as cenas de ação são ótimas, com destaque para o conflito no meio da tempestade de areia.

     Bradley Cooper é a grande estrela do filme e mostra que ainda tem muito a oferecer, apresentando, provavelmente, o melhor desempenho de sua carreira até agora. O ator ganhou peso e desenvolveu seu sotaque, tendo grande comprometimento com o papel. A indicação ao Oscar de Melhor Ator não pode ser considerada um absurdo, embora o injustiçado Jake Gyllenhaal ainda tenha sido melhor em O Abutre.

     Mesmo não apresentando nenhuma crítica elaborada, Sniper Americano é extremamente bem feito. As interpretações políticas, certamente, irão variar entre as pessoas, mas isso não tira todas as qualidades da produção. Uma grande dica: caso não saiba sobre os acontecimentos da vida de Chris Kyle, não procure antes de assistir o filme. O impacto fica ainda maior.

Por: Vitor Pontes

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Caminhos da Floresta - Crítica

Nota: 4

Título: Caminhos da Floresta (Into the Woods)
Gênero: Musical, Fantasia
Nacionalidade: EUA
Ano de produção: 2014
Estreia no Brasil: 29 de janeiro de 2015
Duração: 124 minutos
Classificação indicativa: 12 anos
Direção: Rob Marshall
Roteiro: James Lapine (Obra original de Stephen Sondheim)
Elenco: Meryl Streep, Emily Blunt, James Corden, Anna Kendrick, Chris Pine, Johnny Depp, MacKenzie Mauzy, Christine Baranski, Daniel Huttlestone, Lilla Crawford, Richard Glover


     Adaptações são quase garantia de sucesso em Hollywood. Escolha uma obra famosa, pegue o material pronto e altere as partes necessárias para que tudo se encaixe na nova mídia. O público tem conhecimento prévio do conteúdo que verá quando entrar no cinema, o que já garante uma bilheteria maior, enquanto as produtoras podem fazer seus filmes mais rapidamente. A maioria dessas obras surgem a partir de livros, mas muitas vem diretamente de apresentações musicais, mais especificamente das que acontecem em uma importante avenida de Nova York: a Broadway.

     Apesar de sucessos como Chicago, levar um musical às telas é uma difícil missão para a indústria cinematográfica. O visual e a agilidade da história são aspectos cuja alteração pode resultar em um grande fracasso. Com isso, a mais nova aposta do estilo é Caminhos da Floresta, adaptada do sucesso Into the Woods, que estreou em 1986 e trazia a inovadora proposta de utilizar personagens de contos de fadas na história. Para dirigir o filme, foi chamado Rob Marshall, experiente no gênero, mas nem isso consegue salvar o longa de seus vários problemas.

     A trama mistura diversos personagens criados pelos irmãos Grimm, incluindo Cinderela (Anna Kendrick), o príncipe encantado (Chris Pine), Rapunzel (MacKenzie Mauzy), João (Daniel Huttlestone) e Chapeuzinho Vermelho (Lilla Crawford). Os protagonistas são um padeiro (James Corden) e sua esposa (Emily Blunt), que sofrem as consequências do feitiço de uma bruxa (Meryl Streep) lançado em seus ancestrais. Para desfazer a magia, eles precisam ir a floresta buscar os objetos que acabarão com a maldição, o que leva aos mais variados encontros com personagens clássicos.

     O filme já consegue chamar a atenção do público apenas por citar os contos que toda pessoa conhece desde criança, dispensando apresentações para certas figuras que se encaixam com naturalidade a história. Apesar disso, os primeiros erros logo surgem através dos diálogos, fracos e explicativos demais. Muitas partes são desnecessárias e vão cansando o espectador cada vez mais.

     O roteiro até possui uma ideia interessante, mas se perde no meio da divisão de suas partes, exagerando ao destacar alguns momentos e fazendo com que certas situações pareçam irrelevantes de tão rápidas. Pior ainda são os claros erros de continuidade e as soluções fáceis escolhidas para que a história siga o caminho desejado. Outro problema do enredo escrito por James Lapine esta nos exagerados 124 minutos de duração. Quando o filme pareça estar acabando ele sofre uma reviravolta que estende a produção em meia hora de conteúdo desnecessário e de qualidade duvidosa.

     Ao menos, a obra consegue oferecer um pouco de competência na parte mais essencial: as músicas. Sem muitas coreografias, elas se adaptam naturalmente as cenas, embora não sejam muito memoráveis. O maior destaque acaba ficando para a hilária Agony, que envolve dois príncipes em um "duelo" onde discutem suas qualidades. Junto a trilha sonora, o visual também é muito bom e consegue captar bem o clima proposto.

     No grande elenco, Meryl Streep, como esperado, é destaque em mais uma atuação incrível, ganhando outra indicação ao Oscar pelo filme. Surpreendendo a todos, Emily Blunt demonstra uma voz poderosa e rouba a cena sempre que aparece. Infelizmente, apenas as duas conseguem ganhar elogios. Anna Kendrick, James Corden e Chris Pine são bem irregulares em seus personagens. Enquanto isso, Johnny Depp tem uma participação mínima que segue a linha dos preguiçosos papéis que vem fazendo desde Piratas do Caribe.

    Com tantos erros, Caminhos da Floresta é uma decepção e será rapidamente esquecido. Nem o bom visual compensa os graves problemas do roteiro, cheio de personagens mal desenvolvidos. Embora sempre tente, o longa não consegue empolgar em nenhum momento, o que é uma pena tendo em vista o grande potencial do projeto.

Por: Vitor Pontes

Dois Dias, Uma Noite - Crítica

Nota: 8

Título: Dois Dias, Uma Noite (Deux jours, une nuit)
Gênero: Drama
Nacionalidade: Bélgica, França, Itália
Ano de produção: 2014
Estreia no Brasil: 05 de fevereiro de 2015
Duração: 95 minutos
Classificação indicativa: 12 anos
Direção: Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne
Roteiro: Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne
Elenco: Marion Cotillard, Fabrizio Rongione, Catherine Salée, Baptiste Sornin, Pili Groyne, Simon Caudry, Christelle Cornil, Olivier Gourmet


  O desemprego é uma das grandes consequências da crise econômica que já vem atingindo a Europa há algum tempo. Utilizando seu conhecido estilo cinematográfico, os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne resolveram levar essa questão de grande importância para os cinemas com Dois Dias, Uma Noite. Aparentemente, a obra busca apenas fazer um retrato do cenário europeu atualmente, mas logo demonstra uma profundidade maior, tratando de relações humanas de uma forma inteligente e cuidadosa.

     Na história, Sandra (Marion Cotillard) acabou de se recuperar de uma depressão que a afastou do trabalho durante um longo período. Ao retornar, ela descobre que foi despedida através de uma votação dos outros funcionários da fábrica, onde tinham que escolher entre mantê-la na equipe ou ganhar um valor adicional de mil euros no salário. Porém, ao descobrir que alguns colegas foram persuadidos a votar contra ela, Sandra se junta ao marido, Manu (Fabrizio Rongione), para ir atrás dos empregados e convencê-los a mudar de ideia, só tendo o período de dois dias e uma noite até a nova votação. 

     Por mais que o roteiro pareça apenas querer mostrar o lado ruim do sistema econômico capitalista, ele demonstra grande qualidade ao abordar o tema de forma humana através de sua protagonista muito bem desenvolvida, que ganha força através da excelente Marion Cotillard, indicada ao Oscar pelo papel. Demonstrando sensibilidade de forma extremamente natural, a atriz carrega o filme, ficando claro que esse não funcionaria sem sua grande atuação.

    A trama tem como grande mérito não dividir os personagens em "mocinhos e vilões", evitando a existência de um antagonista definido. Por mais que alguns tenham decidido tirar o emprego da protagonista apenas pelo desejo de ganhar mais dinheiro, a maioria tem bons motivos para isso. O alto custo de vida, às vezes, não permite que os colegas ajudem Sandra, por mais que desejem. As diferentes ideologias entram em conflito e trazem questões morais interessantes, não parecendo forçadas em nenhum momento.

     A produção utiliza muito a técnica de câmera na mão, destacando o realismo dos acontecimentos e a busca por um tom mais natural possível. Os temas paralelos a trama principal, como família, depressão e amor, ajudam a trazer uma sensação ainda maior de que estamos acompanhando uma história que poderia acontecer com qualquer um.

     Simples e sem exageros, Dois Dias, Uma Noite é um filme sensível e que consegue até emocionar em certos momentos. Os irmãos Dardenne apresentam de forma leve, mas efetiva, uma ótima crítica ao individualismo e a ganância das pessoas no cenário atual, que, unida a excelente atuação de Marion Cotillard, garante a qualidade de uma das obras mais interessantes do ano até agora.

Por: Vitor Pontes

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Para Sempre Alice - Crítica

Nota: 8

Título: Para Sempre Alice (Still Alice)
Gênero: Drama
Nacionalidade: EUA
Ano de produção: 2014
Estreia no Brasil: 12 de março de 2015
Duração: 101 minutos
Classificação indicativa: 12 anos
Direção: Richard Glatzer, Wash Westmoreland
Roteiro: Richard Glatzer, Wash Westmoreland (Obra original de Lisa Genova)
Elenco: Julianne Moore, Alec Baldwin, Kristen Stewart, Kate Bosworth, Shane McRae, Hunter Parrish, Seth Gilliam, Victoria Cartagena, Daniel Gerroll


     O Mal de Alzheimer é, certamente, uma das doenças mais terríveis que alguém pode desenvolver, não apenas pelos problemas que ela traz ao portador, mas para todos ao seu redor. Acompanhar quem possui essa enfermidade é um processo doloroso, afinal, é como assistir a mente de um ser humano sendo destruída aos poucos, com memórias que vão e vem até desaparecerem por completo. Para Sempre Alice, baseado no livro homônimo, retrata um pouco do drama de uma pessoa comum que precisa lidar com as consequências desse problema.

     A Dra. Alice Howland (Julianne Moore) é uma renomada professora de linguística, mãe de três filhos e casada com o também doutor, John (Alec Baldwin). Ao perceber que esta esquecendo diversas palavras, incluindo nomes de pessoas e lugares, ela procura um neurologista, no qual descobre possuir Mal de Alzheimer de Início Precoce, que ocorre quando o paciente é diagnosticado com a doença antes dos 65 anos de idade. Alice passa a ter que lidar com as consequências da situação, incluindo grandes mudanças nas relações de sua família.

     A missão de adaptar a obra de Lisa Genova para o cinema era bem complicada. É o tipo de história que, geralmente, acaba ficando melodramática demais, porém, Richard Glatzer e Wash Westmoreland, diretores e roteiristas da produção, conseguiram fazer um filme que trata o tema de forma sensível e comovente, sem precisar apelar para o sentimentalismo.

     A introdução de Alice é simples e ágil, sendo a protagonista realmente construída a partir da "desconstrução" de sua personalidade pela doença que possui. Com isso, a história trata de uma jornada de recomeços, onde Alice precisa sempre buscar saber mais sobre quem realmente é. O foco no lado emocional dá força ainda maior para a personagem, que já conseguia criar empatia com o espectador por ser alguém comum enfrentando um problema que pode afetar qualquer pessoa.

     Os relacionamentos familiares também são um dos pontos mais importantes que o filme aborda, principalmente no que se refere ao marido, John, e a filha caçula, Lydia (Kristen Stewart). Enquanto o primeiro parece se afastar cada vez mais conforme a doença avança, a jovem começa a se aproximar da mãe. Através deles, a produção fala mais sobre amor e companheirismo, outros temas da obra.

     A fotografia utiliza a claridade para simbolizar o esquecimento, com ambientes cada vez mais brancos demonstrando o progresso do Alzheimer. Além disso, imagens sem foco também representam Alice perdendo a própria personalidade, com destaque para a cena em que mal consegue ver seu reflexo na televisão. Tudo isso é acompanhado de uma ótima trilha sonora, delicada como deve ser.

     Tratando-se de uma obra de personagem, uma forte atuação é essencial, sendo entregue com perfeição pela sempre incrível Julianne Moore. A atriz mostra o porquê de estar ganhando reconhecimento em diversas premiações e ser a grande favorita ao Oscar desse ano. Em um papel que exige tanto emocionalmente, a qualidade é inquestionável, com cada sentimento muito bem retratado.

     Junto a Moore, aparecem com mais importância dois coadjuvantes. Alec Baldwin mantém o seu bom nível de sempre, fazendo o marido que não sabe lidar com a situação. Kristen Stewart tem uma personagem interessante para o desenvolvimento de Alice, mas a atriz, cujas limitações sempre foram óbvias, não consegue dar profundidade a ela. Uma escolha melhor teria fornecido ainda mais impacto emocional para a produção.

     Simples e bem feito, Para Sempre Alice é um filme comovente, não deixando de ser uma bandeira importante para a doença que alguns até evitam falar sobre apenas pelo medo dela. Uma ótima produção que merece ser vista, tanto pela bela história quanto para acompanhar o fantástico desempenho de uma das melhores atrizes de Hollywood atualmente.

Por: Vitor Pontes

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Os injustiçados e as surpresas do Oscar 2015

     Faltando quase uma semana para o Oscar, as expectativas quanto a maior premiação do cinema mundial vão aumentando. Embora alguns filmes como Sniper Americano, Para Sempre Alice e Vício Inerente ainda não tenham sido lançados no Brasil, muitos já escolheram seus favoritos entre os indicados e estão preparando a torcida por eles. Porém, existem os casos em que a produção ou o ator que a pessoa tanto gostou acabou ficando de fora. Além desses, há situações onde o favorito que o espectador tinha certeza que não estaria entre os indicados surpreendeu e marcou presença na lista. Assim, aqui estão sendo apresentados alguns dos grandes injustiçados e as principais surpresas do Oscar 2015. Confira:


Garota Exemplar

     Para iniciar essa lista, o filme que, incontestavelmente, foi o mais injustiçado dessa premiação. O suspense Garota Exemplar foi aclamado pela crítica mundial e teve um resultado incrível nas bilheterias. Na história, Ben Affleck interpreta Nick Dunne, marido que tem de lidar com as consequências do desaparecimento da esposa, Amy Dunne, no dia do quinto aniversário de casamento dos dois. Conforme as investigações avançam, Nick começa a agir de forma cada vez mais estranha e se torna um dos principais suspeitos do crime.


     A produção só foi lembrada na categoria de Melhor Atriz para Rosamund Pyke, intérprete da mulher desaparecida. Mesmo sendo realizada pelo genial David Fincher, a obra não conseguiu as esperadas indicações a Melhor Filme, Melhor Diretor e nem Melhor Roteiro Adaptado, essa última na qual era considerada uma forte candidata ao prêmio. Confira a crítica do filme.




Foxcatcher - Uma História que Chocou o Mundo

   Com indicações nas categorias de Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Roteiro Original e Melhor Maquiagem, vem a pergunta: Por que Foxcatcher - Uma História que Chocou o Mundo pode ser considerado injustiçado? A resposta esta em outra pergunta inexplicável: Como a obra ficou fora da categoria de Melhor Filme?

     Prevista para ser lançada em 2013, a produção foi adiada tendo como objetivo melhorar sua conclusão e obter mais chances nessa edição do Oscar. Porém, o longa ficou de fora do principal prêmio da noite, o que é difícil de explicar considerando a excelência do filme e o fato do diretor Bennett Miller ter sido indicado. Complicado de entender. Confira a crítica do filme.




Selma - Uma Luta Pela Igualdade

     Esse é um caso analisado separadamente, afinal, por mais estranho que possa parecer, Selma - Uma Luta Pela Igualdade é, ao mesmo tempo, um injustiçado e uma surpresa. O filme é uma cinebiografia do pastor e ativista social Martin Luther King, um dos principais defensores dos direitos dos negros no último século. O roteiro acompanha a série de marchas realizadas por ele, que tiveram início na cidade de Selma, no Alabama.

   Embora fosse considerado um dos grandes favoritos, problemas relacionados a distribuição do filme para os críticos da Academia acabaram baixando as expectativas para o longa, que foi prejudicado nas votações devido a essa situação. Porém, surpreendentemente, Selma conseguiu ser indicado a Melhor Filme, mas, fora isso, foi selecionado apenas na categoria de Melhor Canção Original. O ator David Oyelowo e a diretora Ave DuVernay, que eram fortes candidatos para o prêmio, não foram nomeados.



O Grande Hotel Budapeste

 Wes Anderson nunca recebeu o reconhecimento que merece. O diretor e roteirista de filmes como Moonrise Kingdom e O Fantástico Sr. Raposo sempre foi mais lembrado pelo visual de suas produções do que pelo conteúdo completo. Porém, o cineasta surpreendeu a todos liderando, ao lado de Birdman, as indicações ao Oscar desse ano com O Grande Hotel Budapeste. A divertida comédia é grande favorita a diversas categorias técnicas e pode surpreender nos principais prêmios, o que já fez ao ganhar o Globo de Ouro de Melhor Filme - Comédia ou Musical. Infelizmente, Ralph Fiennes não foi nomeado para Melhor Ator. Confira a crítica do filme.


Sniper Americano

     Dirigido por Clint Eastwood, Sniper Americano é baseado no livro American Sniper: The Autobiography of the Most Lethal Sniper in the U.S. Military History, mostrando a história de Chris Kyle, considerado o melhor atirador da história do exército dos EUA, tendo mais de 150 mortes confirmadas oficialmente pelo pentágono.

     Disparadamente, é o longa mais lucrativo dessa edição do Oscar, estando entre as principais bilheterias de 2014 nos EUA. Polêmicas a parte pelo conteúdo considerado por muitos como "patriótico ao extremo", a produção era uma das grandes favoritas, mas gerou dúvidas após não receber nenhuma indicação ao Globo de Ouro. Entretanto, os membros da Academia gostaram da obra, que surpreendeu sendo nomeada a seis categorias, incluindo Melhor Filme e Melhor Ator para Bradley Cooper. Mesmo assim, Clint Eastwood não conseguiu a chance de disputar seu terceiro Oscar de Melhor Diretor.


Damien Chazelle

   Whiplash - Em Busca da Perfeição surpreendeu com tanta qualidade, ainda mais para um filme independente. As atuações fantásticas de Miles Teller e J.K. Simmons foram essenciais, mas a grande alma do projeto foi Damien Chazelle, diretor e roteirista de apenas 29 anos. Com um estilo de filmagem frenético e que utiliza todo o potencial do tema relacionado a música, é uma injustiça ver o cineasta fora da categoria de Melhor Diretor. Considerando que até a direção burocrática de Morten Tyldum em O Jogo da Imitação foi indicada, fica difícil explicar a situação. Confira a crítica de Whiplash - Em Busca da Perfeição.


Jake Gyllenhaal

     Quando O Abutre foi lançado, todos tinham uma certeza: Jake Gyllenhaal era, até então, o grande favorito ao Oscar. Com o tempo, outras atuações passaram a dividir o brilho com ele, mas o astro continuou como um nome certo nas premiações. Apesar disso, mesmo perdendo dez quilos para o papel e sabendo criar momentos de loucura como poucos já fizeram, Gyllenhaal não conseguiu uma indicação, tendo seu caso considerado em diversas enquetes como a maior injustiça dessa edição. Além de Jake, é bom destacar que esqueceram mais na obra: Rene Russo, que também tinha boas chances na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante. Confira a crítica de O Abutre.


Jessica Chastain

     Nome que vem ganhando muito destaque nos últimos anos, Jessica Chastain tem uma capacidade de escolher boas produções impressionante. Com filmes cada vez melhores, a atriz que estreou no independente Jolene já teve duas indicações ao Oscar, uma por História Cruzadas, em 2012, e outra por A Hora Mais Escura, em 2013. Em 2014, Chastain roubou a cena com O Ano Mais Violento, atuação mais elogiada de sua curta e excelente carreira até agora, mas, ficou fora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. No lugar dela, entrou Laura Dern, que surpreendeu a todos com o sensível e ótimo papel no filme Livre. Confira a crítica de Livre.


Jennifer Aniston

     De forma extremamente inesperada, Jennifer Aniston resolveu se arriscar em um drama com Cake - Uma Razão para Viver. Com tantos elogios da crítica internacional e uma indicação ao Globo de Ouro, era esperado que a atriz conseguisse seu espaço no Oscar, que, afinal, costuma reconhecer comediantes que se aventuram em outros gêneros (a exemplo de Steve Carell, nessa edição). Apesar disso, a eterna Rachel ficou de fora da premiação, dando lugar a Marion Cotillard com seu papel em Dois Dias, Uma Noite.


Amy Adams

     A "queridinha" do Oscar nos últimos anos era, mais uma vez, forte candidata a categoria de Melhor Atriz. Por mais que Grandes Olhos não seja uma produção tão boa, Amy Adams mostra a dedicação de sempre e entrega uma boa interpretação, que ganha força devido a história da personagem real que ela faz. As expectativas aumentaram ainda mais após ganhar o Globo de Ouro de Melhor Atriz - Comédia ou Musical, mas Amy não entrou nos indicados da Academia. Confira a crítica de Grandes Olhos.


Uma Aventura Lego

     Com um apelo comercial enorme, Uma Aventura Lego se tornou a terceira maior bilheteria dos EUA em 2014, marca impressionante que ganha ainda mais destaque pelo fato de ser uma animação. Realizada por Phil Lord e Christopher Miller, que já haviam feito o desenho Tá Chovendo Hambúrguer, a produção dos famosos brinquedos de montar agradou a crítica e divertiu tanto crianças quanto adultos, inclusive tendo uma sequência confirmada pouco tempo depois. Mas, nem todo o sucesso garantiu uma indicação ao Oscar de Melhor Animação. Entretanto, o filme foi nomeado na categoria de Melhor Canção Original com a animada e viciante Everything Is Awesome. Confira a crítica do filme.

Por: Vitor Pontes

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Foxcatcher - Uma História que Chocou o Mundo - Crítica

Nota: 9

Título: Foxcatcher - Uma História que Chocou o Mundo (Foxcatcher)
Gênero: Drama, Biografia
Nacionalidade: EUA
Ano de produção: 2014
Estreia no Brasil: 22 de janeiro de 2015
Duração: 134 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Direção: Bennett Miller
Roteiro: Dan Futterman
Elenco: Steve Carell, Channing Tatum, Mark Ruffalo, Siena Miller, Anthony Michael Hall, Vanessa Redgrave, Brett Rice, Guy Boyd


     A obsessão pelo sucesso parece ser um dos temas mais presentes nessa edição do Oscar. Whiplash - Em Busca da Perfeição e Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), dois grandes nomes na premiação desse ano, tratam da necessidade de fama e reconhecimento, aliadas ao desespero em não ser uma pessoa qualquer que logo será esquecida. No primeiro, temos um jovem em busca de seus sonhos, no segundo, há uma grande crítica as mídias de entretenimento. Foxcatcher - Uma História que Chocou o Mundo, ousa ao trazer uma representação desse tema em escala ainda maior: a obsessão de um país pela vitória.

     Mark Schultz (Channing Tatum) é campeão olímpico de luta greco-romana e uma lenda do esporte. O americano sempre treinou junto com o irmão mais velho, Dave (Mark Ruffalo), outro nome importante da modalidade. Apesar do sucesso, Mark parece não se contentar com o que já possui, vivendo de forma triste e simples. Um dia, Schultz recebe uma ligação de John du Pont (Steve Carell), milionário apaixonado pelo esporte, que deseja o atleta em sua equipe, a Foxcatcher, onde teria todo tipo de suporte financeiro para alcançar glórias cada vez maiores. Embora tudo pareça incrível no início, Mark começa a perceber que a complexa personalidade de du Pont é um grande problema, podendo levar a consequências chocantes na vida do lutador.

     Bennet Miller, diretor do filme, continua demonstrando sua preferência em adaptar histórias reais (sim, por mais incrível que os acontecimentos sejam, são fatos). O cineasta volta as telas três anos após realizar o excelente O Homem que Mudou o Jogo, fazendo parceria com o roteirista Dan Futterman, com quem trabalhou em Capote, filme que rendeu ao diretor uma indicação ao Oscar. Novamente, Miller foi nomeado a categoria no grande prêmio de forma justa pela melhor produção de sua carreira até agora.

    "Eu dou esperança a América". A frase de John du Pont, que esta presente até no trailer de Foxcatcher, é marcante dentro do contexto do filme: a insatisfação dos EUA com a derrota. Faz parte da cultura dos norte-americanos não aceitar ser o segundo lugar em nada. O país precisa ser sempre o melhor. O narcisismo estadunidense é o principal alvo da crítica do longa que, apesar de focar no esporte, pode claramente ser interpretado como uma metáfora as decisões políticas da nação.

     Com um clima sombrio e melancólico, a obra demora um pouco a engrenar, mas, após um tempo, começa a demonstrar todo o potencial através da figura de seus três protagonistas. O desenvolvimento de cada um é feito pelo estudo de suas personalidades diante de situações que envolvem derrota e superação. Assim, todos se relacionam com a necessidade de vencer que é tema da produção, querendo sempre mais do que já possuem.

     John du Pont é, certamente, a figura mais interessante da história. Um homem reservado e com claras dificuldades para se relacionar com outras pessoas, o milionário tem uma postura superficial e pouco expressiva que é o reflexo dos problemas psicológicos que possui e de sua infância complicada. Com isso, é difícil prever qual será a próxima atitudade do personagem, com as únicas pistas sobre suas ações sendo reveladas pelo olhar assustador que mantém. Todo esse desenvolvimento só acontece de forma tão boa graças a atuação fantástica de Steve Carell. O ator conhecido por comédias se arrisca em um papel mais sério como fez em Pequena Miss Sunshine, mas com um impacto extremamente maior. Elogios aos responsáveis pela maquiagem, que o transformaram em uma figura muito sombria.

     Mark Schultz é o grande representante da obsessão pela vitória, custe o que custar. Porém, o personagem começa a se alterar cada vez mais conforme percebe as dificuldades em viver com du Pont. Channing Tatum merece muito destaque pela parte física. O ator passou por séries de pesados exercícios antes das filmagens para ficar com o porte de um lutador olímpico, que se adapta muito bem ao jeito do protagonista. Mesmo que, geralmente, se saia melhor em comédias, Tatum mostra que tem capacidade para algumas produções mais dramáticas.

     Completando os destaques, esta o sempre ótimo Mark Ruffalo, intérprete de Dave Schultz, que representa, muitas vezes, o oposto das ideias do irmão. Aposentado, mas ainda participando de alguns eventos, Dave parece se conformar várias vezes com sua situação, o que os outros acreditam ser um absurdo.

     Com atuações fantásticas e uma parte técnica muito boa, Foxcatcher - Uma História que Chocou o Mundo é um excelente filme, embora leve um tempo para prender a atenção de vez. Na parte final da obra, uma cena é especial: Mark Schultz entrando em uma luta aos gritos de "USA, USA, USA". Ali, tendo em mente os acontecimentos anteriores, é possível ver que Bennett Miller passou com sucesso a crítica que tinha em mente. Mesmo que venha por caminhos sombrios, a vitória é essencial. Nada mais importa.

Por: Vitor Pontes

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Whiplash - Em Busca da Perfeição - Crítica

Nota: 10

Título: Whiplash - Em Busca da Perfeição (Whiplash)
Gênero: Drama, Suspense
Nacionalidade: EUA
Ano de produção: 2014
Estreia no Brasil: 08 de janeiro de 2015
Duração: 106 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Direção: Damien Chazelle
Roteiro: Damien Chazelle
Elenco: Miles Teller, J.K. Simmons, Paul Reiser, Melissa Benoist, Jayson Blair, Austin Stowell, Damon Gupton, Kofi Siriboe, Tarik Low


    Quem já tinha ouvido falar de Damien Chazelle? Com apenas 29 anos, o americano só possuía dois trabalhos em sua curta carreira, tendo escrito o roteiro dos fracos Toque de Mestre e O Último Exorcismo: Parte II. Mesmo assim, o desconhecido (por enquanto) cineasta chamou a atenção da crítica mundial ao trazer um dos melhores filmes da história do Festival de Sundance: Whiplash - Em Busca da Perfeição, grande vencedor da edição de 2014 desse evento responsável por revelar algumas das melhores produções independentes do mundo.

     O jovem Andrew Neyman (Miles Teller) é um garoto solitário que sonha se tornar um grande baterista de jazz. Aliás, "grande" é pouco para definir suas pretensões. Ele deseja ser o melhor da geração, chegando ao nível de seu maior ídolo, o lendário Buddy Rich. Apesar de tocar em um grupo, Neyman não tem muito destaque, pelo menos até conhecer o professor Terence Fletcher (J.K. Simmons), membro da Shaffer, a melhor escola de música dos EUA. A vida parece estar levando o adolescente pelo caminho para a fama, mas ele terá que enfrentar os métodos agressivos, até abusivos, de seu novo mestre. A convivência com Terence parece deixar Andrew cada vez mais obcecado pelo sucesso, o que pode trazer consequências extremas a seu estado físico e mental.

     A busca descontrolada pela perfeição, que o título nacional faz questão de ressaltar, acaba por lembrar um pouco o tema do sombrio Cisne Negro, filme de 2010 produzido por Darren Aronofsky, mestre em fazer obras sobre obsessão. Whiplash é um retrato sobre a necessidade que muitas pessoas sentem de ganhar reconhecimento e marcarem seus nomes para não ficarem como "apenas mais um" nesse grande mundo.

    Um dos pontos mais interessantes levantados pelo filme pode se relacionar a nossso tempo não só através da música, mas em esportes e escolas: a pressão como instrumento para o ensino e o aprimoramento de determinadas qualidades. Isso pode gerar uma discussão que resultaria nas mais diversas opiniões sobre o assunto, importante dentro do contexto da sociedade atualmente.

     O tema relacionado a música logo indica uma trilha sonora incrível, mas essa faz muito mais do que simplesmente complementar a história. As canções definem o tom das cenas e são espetaculares. Além disso, o modo como a obra foi filmada traz incríveis momentos de tensão durante os surtos dos personagens, com destaque para o final do longa, tão frenético que consegue passar um clima de desespero absurdo.

     Miles Teller, que muitos conhecem por ser Reed Richards no novo Quarteto Fantástico, que será lançado em agosto, prova o porquê de ser um dos jovens mais promissores do cinema na atualiadade. Destaque de comédias como Projeto X e um dos principais astros do sucesso teen A Série Divergente, o ator consegue entregar um protagonista desenvolvido de maneira fantástica, convencendo desde as cenas mais simples e sensíveis no começo do filme, até nos momentos de fúria de Andrew durante a história.

     Ganhador do Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante, J.K. Simmons ainda conquistou muitos outros prêmios e tem claro favoritismo na briga pelo Oscar da categoria devido ao brilhante papel na produção. Sem dúvidas, o professor Terence rende a melhor atuação de toda a carreira de seu intérprete. Gritos, palavrões e momentos de pura insanidade comandam as atitudes de um dos melhores personagens feitos para o cinema nesse último ano.

     Indicado a cinco categorias no Oscar, incluindo Melhor Filme, Whiplash - Em Busca da Perfeição é uma das maiores surpresas do momento, considerando seu diretor e roteirista iniciante e o fato de ser uma produção independente. Tenso, envolvente e perturbador, o longa é, sem dúvidas, merecedor de todo o reconhecimento que esta ganhando. O jazz foi poucas vezes tão bem aproveitado em outras mídias quanto nessa obra-prima da sétima arte.

Por: Vitor Pontes