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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Para Sempre Alice - Crítica

Nota: 8

Título: Para Sempre Alice (Still Alice)
Gênero: Drama
Nacionalidade: EUA
Ano de produção: 2014
Estreia no Brasil: 12 de março de 2015
Duração: 101 minutos
Classificação indicativa: 12 anos
Direção: Richard Glatzer, Wash Westmoreland
Roteiro: Richard Glatzer, Wash Westmoreland (Obra original de Lisa Genova)
Elenco: Julianne Moore, Alec Baldwin, Kristen Stewart, Kate Bosworth, Shane McRae, Hunter Parrish, Seth Gilliam, Victoria Cartagena, Daniel Gerroll


     O Mal de Alzheimer é, certamente, uma das doenças mais terríveis que alguém pode desenvolver, não apenas pelos problemas que ela traz ao portador, mas para todos ao seu redor. Acompanhar quem possui essa enfermidade é um processo doloroso, afinal, é como assistir a mente de um ser humano sendo destruída aos poucos, com memórias que vão e vem até desaparecerem por completo. Para Sempre Alice, baseado no livro homônimo, retrata um pouco do drama de uma pessoa comum que precisa lidar com as consequências desse problema.

     A Dra. Alice Howland (Julianne Moore) é uma renomada professora de linguística, mãe de três filhos e casada com o também doutor, John (Alec Baldwin). Ao perceber que esta esquecendo diversas palavras, incluindo nomes de pessoas e lugares, ela procura um neurologista, no qual descobre possuir Mal de Alzheimer de Início Precoce, que ocorre quando o paciente é diagnosticado com a doença antes dos 65 anos de idade. Alice passa a ter que lidar com as consequências da situação, incluindo grandes mudanças nas relações de sua família.

     A missão de adaptar a obra de Lisa Genova para o cinema era bem complicada. É o tipo de história que, geralmente, acaba ficando melodramática demais, porém, Richard Glatzer e Wash Westmoreland, diretores e roteiristas da produção, conseguiram fazer um filme que trata o tema de forma sensível e comovente, sem precisar apelar para o sentimentalismo.

     A introdução de Alice é simples e ágil, sendo a protagonista realmente construída a partir da "desconstrução" de sua personalidade pela doença que possui. Com isso, a história trata de uma jornada de recomeços, onde Alice precisa sempre buscar saber mais sobre quem realmente é. O foco no lado emocional dá força ainda maior para a personagem, que já conseguia criar empatia com o espectador por ser alguém comum enfrentando um problema que pode afetar qualquer pessoa.

     Os relacionamentos familiares também são um dos pontos mais importantes que o filme aborda, principalmente no que se refere ao marido, John, e a filha caçula, Lydia (Kristen Stewart). Enquanto o primeiro parece se afastar cada vez mais conforme a doença avança, a jovem começa a se aproximar da mãe. Através deles, a produção fala mais sobre amor e companheirismo, outros temas da obra.

     A fotografia utiliza a claridade para simbolizar o esquecimento, com ambientes cada vez mais brancos demonstrando o progresso do Alzheimer. Além disso, imagens sem foco também representam Alice perdendo a própria personalidade, com destaque para a cena em que mal consegue ver seu reflexo na televisão. Tudo isso é acompanhado de uma ótima trilha sonora, delicada como deve ser.

     Tratando-se de uma obra de personagem, uma forte atuação é essencial, sendo entregue com perfeição pela sempre incrível Julianne Moore. A atriz mostra o porquê de estar ganhando reconhecimento em diversas premiações e ser a grande favorita ao Oscar desse ano. Em um papel que exige tanto emocionalmente, a qualidade é inquestionável, com cada sentimento muito bem retratado.

     Junto a Moore, aparecem com mais importância dois coadjuvantes. Alec Baldwin mantém o seu bom nível de sempre, fazendo o marido que não sabe lidar com a situação. Kristen Stewart tem uma personagem interessante para o desenvolvimento de Alice, mas a atriz, cujas limitações sempre foram óbvias, não consegue dar profundidade a ela. Uma escolha melhor teria fornecido ainda mais impacto emocional para a produção.

     Simples e bem feito, Para Sempre Alice é um filme comovente, não deixando de ser uma bandeira importante para a doença que alguns até evitam falar sobre apenas pelo medo dela. Uma ótima produção que merece ser vista, tanto pela bela história quanto para acompanhar o fantástico desempenho de uma das melhores atrizes de Hollywood atualmente.

Por: Vitor Pontes

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Os injustiçados e as surpresas do Oscar 2015

     Faltando quase uma semana para o Oscar, as expectativas quanto a maior premiação do cinema mundial vão aumentando. Embora alguns filmes como Sniper Americano, Para Sempre Alice e Vício Inerente ainda não tenham sido lançados no Brasil, muitos já escolheram seus favoritos entre os indicados e estão preparando a torcida por eles. Porém, existem os casos em que a produção ou o ator que a pessoa tanto gostou acabou ficando de fora. Além desses, há situações onde o favorito que o espectador tinha certeza que não estaria entre os indicados surpreendeu e marcou presença na lista. Assim, aqui estão sendo apresentados alguns dos grandes injustiçados e as principais surpresas do Oscar 2015. Confira:


Garota Exemplar

     Para iniciar essa lista, o filme que, incontestavelmente, foi o mais injustiçado dessa premiação. O suspense Garota Exemplar foi aclamado pela crítica mundial e teve um resultado incrível nas bilheterias. Na história, Ben Affleck interpreta Nick Dunne, marido que tem de lidar com as consequências do desaparecimento da esposa, Amy Dunne, no dia do quinto aniversário de casamento dos dois. Conforme as investigações avançam, Nick começa a agir de forma cada vez mais estranha e se torna um dos principais suspeitos do crime.


     A produção só foi lembrada na categoria de Melhor Atriz para Rosamund Pyke, intérprete da mulher desaparecida. Mesmo sendo realizada pelo genial David Fincher, a obra não conseguiu as esperadas indicações a Melhor Filme, Melhor Diretor e nem Melhor Roteiro Adaptado, essa última na qual era considerada uma forte candidata ao prêmio. Confira a crítica do filme.




Foxcatcher - Uma História que Chocou o Mundo

   Com indicações nas categorias de Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Roteiro Original e Melhor Maquiagem, vem a pergunta: Por que Foxcatcher - Uma História que Chocou o Mundo pode ser considerado injustiçado? A resposta esta em outra pergunta inexplicável: Como a obra ficou fora da categoria de Melhor Filme?

     Prevista para ser lançada em 2013, a produção foi adiada tendo como objetivo melhorar sua conclusão e obter mais chances nessa edição do Oscar. Porém, o longa ficou de fora do principal prêmio da noite, o que é difícil de explicar considerando a excelência do filme e o fato do diretor Bennett Miller ter sido indicado. Complicado de entender. Confira a crítica do filme.




Selma - Uma Luta Pela Igualdade

     Esse é um caso analisado separadamente, afinal, por mais estranho que possa parecer, Selma - Uma Luta Pela Igualdade é, ao mesmo tempo, um injustiçado e uma surpresa. O filme é uma cinebiografia do pastor e ativista social Martin Luther King, um dos principais defensores dos direitos dos negros no último século. O roteiro acompanha a série de marchas realizadas por ele, que tiveram início na cidade de Selma, no Alabama.

   Embora fosse considerado um dos grandes favoritos, problemas relacionados a distribuição do filme para os críticos da Academia acabaram baixando as expectativas para o longa, que foi prejudicado nas votações devido a essa situação. Porém, surpreendentemente, Selma conseguiu ser indicado a Melhor Filme, mas, fora isso, foi selecionado apenas na categoria de Melhor Canção Original. O ator David Oyelowo e a diretora Ave DuVernay, que eram fortes candidatos para o prêmio, não foram nomeados.



O Grande Hotel Budapeste

 Wes Anderson nunca recebeu o reconhecimento que merece. O diretor e roteirista de filmes como Moonrise Kingdom e O Fantástico Sr. Raposo sempre foi mais lembrado pelo visual de suas produções do que pelo conteúdo completo. Porém, o cineasta surpreendeu a todos liderando, ao lado de Birdman, as indicações ao Oscar desse ano com O Grande Hotel Budapeste. A divertida comédia é grande favorita a diversas categorias técnicas e pode surpreender nos principais prêmios, o que já fez ao ganhar o Globo de Ouro de Melhor Filme - Comédia ou Musical. Infelizmente, Ralph Fiennes não foi nomeado para Melhor Ator. Confira a crítica do filme.


Sniper Americano

     Dirigido por Clint Eastwood, Sniper Americano é baseado no livro American Sniper: The Autobiography of the Most Lethal Sniper in the U.S. Military History, mostrando a história de Chris Kyle, considerado o melhor atirador da história do exército dos EUA, tendo mais de 150 mortes confirmadas oficialmente pelo pentágono.

     Disparadamente, é o longa mais lucrativo dessa edição do Oscar, estando entre as principais bilheterias de 2014 nos EUA. Polêmicas a parte pelo conteúdo considerado por muitos como "patriótico ao extremo", a produção era uma das grandes favoritas, mas gerou dúvidas após não receber nenhuma indicação ao Globo de Ouro. Entretanto, os membros da Academia gostaram da obra, que surpreendeu sendo nomeada a seis categorias, incluindo Melhor Filme e Melhor Ator para Bradley Cooper. Mesmo assim, Clint Eastwood não conseguiu a chance de disputar seu terceiro Oscar de Melhor Diretor.


Damien Chazelle

   Whiplash - Em Busca da Perfeição surpreendeu com tanta qualidade, ainda mais para um filme independente. As atuações fantásticas de Miles Teller e J.K. Simmons foram essenciais, mas a grande alma do projeto foi Damien Chazelle, diretor e roteirista de apenas 29 anos. Com um estilo de filmagem frenético e que utiliza todo o potencial do tema relacionado a música, é uma injustiça ver o cineasta fora da categoria de Melhor Diretor. Considerando que até a direção burocrática de Morten Tyldum em O Jogo da Imitação foi indicada, fica difícil explicar a situação. Confira a crítica de Whiplash - Em Busca da Perfeição.


Jake Gyllenhaal

     Quando O Abutre foi lançado, todos tinham uma certeza: Jake Gyllenhaal era, até então, o grande favorito ao Oscar. Com o tempo, outras atuações passaram a dividir o brilho com ele, mas o astro continuou como um nome certo nas premiações. Apesar disso, mesmo perdendo dez quilos para o papel e sabendo criar momentos de loucura como poucos já fizeram, Gyllenhaal não conseguiu uma indicação, tendo seu caso considerado em diversas enquetes como a maior injustiça dessa edição. Além de Jake, é bom destacar que esqueceram mais na obra: Rene Russo, que também tinha boas chances na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante. Confira a crítica de O Abutre.


Jessica Chastain

     Nome que vem ganhando muito destaque nos últimos anos, Jessica Chastain tem uma capacidade de escolher boas produções impressionante. Com filmes cada vez melhores, a atriz que estreou no independente Jolene já teve duas indicações ao Oscar, uma por História Cruzadas, em 2012, e outra por A Hora Mais Escura, em 2013. Em 2014, Chastain roubou a cena com O Ano Mais Violento, atuação mais elogiada de sua curta e excelente carreira até agora, mas, ficou fora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. No lugar dela, entrou Laura Dern, que surpreendeu a todos com o sensível e ótimo papel no filme Livre. Confira a crítica de Livre.


Jennifer Aniston

     De forma extremamente inesperada, Jennifer Aniston resolveu se arriscar em um drama com Cake - Uma Razão para Viver. Com tantos elogios da crítica internacional e uma indicação ao Globo de Ouro, era esperado que a atriz conseguisse seu espaço no Oscar, que, afinal, costuma reconhecer comediantes que se aventuram em outros gêneros (a exemplo de Steve Carell, nessa edição). Apesar disso, a eterna Rachel ficou de fora da premiação, dando lugar a Marion Cotillard com seu papel em Dois Dias, Uma Noite.


Amy Adams

     A "queridinha" do Oscar nos últimos anos era, mais uma vez, forte candidata a categoria de Melhor Atriz. Por mais que Grandes Olhos não seja uma produção tão boa, Amy Adams mostra a dedicação de sempre e entrega uma boa interpretação, que ganha força devido a história da personagem real que ela faz. As expectativas aumentaram ainda mais após ganhar o Globo de Ouro de Melhor Atriz - Comédia ou Musical, mas Amy não entrou nos indicados da Academia. Confira a crítica de Grandes Olhos.


Uma Aventura Lego

     Com um apelo comercial enorme, Uma Aventura Lego se tornou a terceira maior bilheteria dos EUA em 2014, marca impressionante que ganha ainda mais destaque pelo fato de ser uma animação. Realizada por Phil Lord e Christopher Miller, que já haviam feito o desenho Tá Chovendo Hambúrguer, a produção dos famosos brinquedos de montar agradou a crítica e divertiu tanto crianças quanto adultos, inclusive tendo uma sequência confirmada pouco tempo depois. Mas, nem todo o sucesso garantiu uma indicação ao Oscar de Melhor Animação. Entretanto, o filme foi nomeado na categoria de Melhor Canção Original com a animada e viciante Everything Is Awesome. Confira a crítica do filme.

Por: Vitor Pontes

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Foxcatcher - Uma História que Chocou o Mundo - Crítica

Nota: 9

Título: Foxcatcher - Uma História que Chocou o Mundo (Foxcatcher)
Gênero: Drama, Biografia
Nacionalidade: EUA
Ano de produção: 2014
Estreia no Brasil: 22 de janeiro de 2015
Duração: 134 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Direção: Bennett Miller
Roteiro: Dan Futterman
Elenco: Steve Carell, Channing Tatum, Mark Ruffalo, Siena Miller, Anthony Michael Hall, Vanessa Redgrave, Brett Rice, Guy Boyd


     A obsessão pelo sucesso parece ser um dos temas mais presentes nessa edição do Oscar. Whiplash - Em Busca da Perfeição e Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), dois grandes nomes na premiação desse ano, tratam da necessidade de fama e reconhecimento, aliadas ao desespero em não ser uma pessoa qualquer que logo será esquecida. No primeiro, temos um jovem em busca de seus sonhos, no segundo, há uma grande crítica as mídias de entretenimento. Foxcatcher - Uma História que Chocou o Mundo, ousa ao trazer uma representação desse tema em escala ainda maior: a obsessão de um país pela vitória.

     Mark Schultz (Channing Tatum) é campeão olímpico de luta greco-romana e uma lenda do esporte. O americano sempre treinou junto com o irmão mais velho, Dave (Mark Ruffalo), outro nome importante da modalidade. Apesar do sucesso, Mark parece não se contentar com o que já possui, vivendo de forma triste e simples. Um dia, Schultz recebe uma ligação de John du Pont (Steve Carell), milionário apaixonado pelo esporte, que deseja o atleta em sua equipe, a Foxcatcher, onde teria todo tipo de suporte financeiro para alcançar glórias cada vez maiores. Embora tudo pareça incrível no início, Mark começa a perceber que a complexa personalidade de du Pont é um grande problema, podendo levar a consequências chocantes na vida do lutador.

     Bennet Miller, diretor do filme, continua demonstrando sua preferência em adaptar histórias reais (sim, por mais incrível que os acontecimentos sejam, são fatos). O cineasta volta as telas três anos após realizar o excelente O Homem que Mudou o Jogo, fazendo parceria com o roteirista Dan Futterman, com quem trabalhou em Capote, filme que rendeu ao diretor uma indicação ao Oscar. Novamente, Miller foi nomeado a categoria no grande prêmio de forma justa pela melhor produção de sua carreira até agora.

    "Eu dou esperança a América". A frase de John du Pont, que esta presente até no trailer de Foxcatcher, é marcante dentro do contexto do filme: a insatisfação dos EUA com a derrota. Faz parte da cultura dos norte-americanos não aceitar ser o segundo lugar em nada. O país precisa ser sempre o melhor. O narcisismo estadunidense é o principal alvo da crítica do longa que, apesar de focar no esporte, pode claramente ser interpretado como uma metáfora as decisões políticas da nação.

     Com um clima sombrio e melancólico, a obra demora um pouco a engrenar, mas, após um tempo, começa a demonstrar todo o potencial através da figura de seus três protagonistas. O desenvolvimento de cada um é feito pelo estudo de suas personalidades diante de situações que envolvem derrota e superação. Assim, todos se relacionam com a necessidade de vencer que é tema da produção, querendo sempre mais do que já possuem.

     John du Pont é, certamente, a figura mais interessante da história. Um homem reservado e com claras dificuldades para se relacionar com outras pessoas, o milionário tem uma postura superficial e pouco expressiva que é o reflexo dos problemas psicológicos que possui e de sua infância complicada. Com isso, é difícil prever qual será a próxima atitudade do personagem, com as únicas pistas sobre suas ações sendo reveladas pelo olhar assustador que mantém. Todo esse desenvolvimento só acontece de forma tão boa graças a atuação fantástica de Steve Carell. O ator conhecido por comédias se arrisca em um papel mais sério como fez em Pequena Miss Sunshine, mas com um impacto extremamente maior. Elogios aos responsáveis pela maquiagem, que o transformaram em uma figura muito sombria.

     Mark Schultz é o grande representante da obsessão pela vitória, custe o que custar. Porém, o personagem começa a se alterar cada vez mais conforme percebe as dificuldades em viver com du Pont. Channing Tatum merece muito destaque pela parte física. O ator passou por séries de pesados exercícios antes das filmagens para ficar com o porte de um lutador olímpico, que se adapta muito bem ao jeito do protagonista. Mesmo que, geralmente, se saia melhor em comédias, Tatum mostra que tem capacidade para algumas produções mais dramáticas.

     Completando os destaques, esta o sempre ótimo Mark Ruffalo, intérprete de Dave Schultz, que representa, muitas vezes, o oposto das ideias do irmão. Aposentado, mas ainda participando de alguns eventos, Dave parece se conformar várias vezes com sua situação, o que os outros acreditam ser um absurdo.

     Com atuações fantásticas e uma parte técnica muito boa, Foxcatcher - Uma História que Chocou o Mundo é um excelente filme, embora leve um tempo para prender a atenção de vez. Na parte final da obra, uma cena é especial: Mark Schultz entrando em uma luta aos gritos de "USA, USA, USA". Ali, tendo em mente os acontecimentos anteriores, é possível ver que Bennett Miller passou com sucesso a crítica que tinha em mente. Mesmo que venha por caminhos sombrios, a vitória é essencial. Nada mais importa.

Por: Vitor Pontes

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Whiplash - Em Busca da Perfeição - Crítica

Nota: 10

Título: Whiplash - Em Busca da Perfeição (Whiplash)
Gênero: Drama, Suspense
Nacionalidade: EUA
Ano de produção: 2014
Estreia no Brasil: 08 de janeiro de 2015
Duração: 106 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Direção: Damien Chazelle
Roteiro: Damien Chazelle
Elenco: Miles Teller, J.K. Simmons, Paul Reiser, Melissa Benoist, Jayson Blair, Austin Stowell, Damon Gupton, Kofi Siriboe, Tarik Low


    Quem já tinha ouvido falar de Damien Chazelle? Com apenas 29 anos, o americano só possuía dois trabalhos em sua curta carreira, tendo escrito o roteiro dos fracos Toque de Mestre e O Último Exorcismo: Parte II. Mesmo assim, o desconhecido (por enquanto) cineasta chamou a atenção da crítica mundial ao trazer um dos melhores filmes da história do Festival de Sundance: Whiplash - Em Busca da Perfeição, grande vencedor da edição de 2014 desse evento responsável por revelar algumas das melhores produções independentes do mundo.

     O jovem Andrew Neyman (Miles Teller) é um garoto solitário que sonha se tornar um grande baterista de jazz. Aliás, "grande" é pouco para definir suas pretensões. Ele deseja ser o melhor da geração, chegando ao nível de seu maior ídolo, o lendário Buddy Rich. Apesar de tocar em um grupo, Neyman não tem muito destaque, pelo menos até conhecer o professor Terence Fletcher (J.K. Simmons), membro da Shaffer, a melhor escola de música dos EUA. A vida parece estar levando o adolescente pelo caminho para a fama, mas ele terá que enfrentar os métodos agressivos, até abusivos, de seu novo mestre. A convivência com Terence parece deixar Andrew cada vez mais obcecado pelo sucesso, o que pode trazer consequências extremas a seu estado físico e mental.

     A busca descontrolada pela perfeição, que o título nacional faz questão de ressaltar, acaba por lembrar um pouco o tema do sombrio Cisne Negro, filme de 2010 produzido por Darren Aronofsky, mestre em fazer obras sobre obsessão. Whiplash é um retrato sobre a necessidade que muitas pessoas sentem de ganhar reconhecimento e marcarem seus nomes para não ficarem como "apenas mais um" nesse grande mundo.

    Um dos pontos mais interessantes levantados pelo filme pode se relacionar a nossso tempo não só através da música, mas em esportes e escolas: a pressão como instrumento para o ensino e o aprimoramento de determinadas qualidades. Isso pode gerar uma discussão que resultaria nas mais diversas opiniões sobre o assunto, importante dentro do contexto da sociedade atualmente.

     O tema relacionado a música logo indica uma trilha sonora incrível, mas essa faz muito mais do que simplesmente complementar a história. As canções definem o tom das cenas e são espetaculares. Além disso, o modo como a obra foi filmada traz incríveis momentos de tensão durante os surtos dos personagens, com destaque para o final do longa, tão frenético que consegue passar um clima de desespero absurdo.

     Miles Teller, que muitos conhecem por ser Reed Richards no novo Quarteto Fantástico, que será lançado em agosto, prova o porquê de ser um dos jovens mais promissores do cinema na atualiadade. Destaque de comédias como Projeto X e um dos principais astros do sucesso teen A Série Divergente, o ator consegue entregar um protagonista desenvolvido de maneira fantástica, convencendo desde as cenas mais simples e sensíveis no começo do filme, até nos momentos de fúria de Andrew durante a história.

     Ganhador do Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante, J.K. Simmons ainda conquistou muitos outros prêmios e tem claro favoritismo na briga pelo Oscar da categoria devido ao brilhante papel na produção. Sem dúvidas, o professor Terence rende a melhor atuação de toda a carreira de seu intérprete. Gritos, palavrões e momentos de pura insanidade comandam as atitudes de um dos melhores personagens feitos para o cinema nesse último ano.

     Indicado a cinco categorias no Oscar, incluindo Melhor Filme, Whiplash - Em Busca da Perfeição é uma das maiores surpresas do momento, considerando seu diretor e roteirista iniciante e o fato de ser uma produção independente. Tenso, envolvente e perturbador, o longa é, sem dúvidas, merecedor de todo o reconhecimento que esta ganhando. O jazz foi poucas vezes tão bem aproveitado em outras mídias quanto nessa obra-prima da sétima arte.

Por: Vitor Pontes

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) - Crítica

Nota: 10

Título: Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) - Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance)
Gênero: Comédia, Drama
Nacionalidade: EUA
Ano de produção: 2014
Estreia no Brasil: 29 de janeiro de 2015
Duração: 119 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Direção: Alejandro González Iñarritu
Roteiro: Alejandro González Iñarritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris, Armando Bo
Elenco: Michael Keaton, Edward Norton, Emma Stone, Zach Galifianakis, Andrea Riseborough, Naomi Watts, Amy Ryan, Damian Young, Merritt Wever, Lindsay Duncan


     Em Hollywood, não basta ter talento, é necessário saber "vender seu peixe". Você pode ser um dos atores, produtores ou diretores mais geniais do mercado e ter grande potencial para se tornar um cineasta de respeito, mas precisa possuir uma imagem de destaque. Ser carismático, ter uma boa aparência e seguir determinadas condutas na vida pessoal viraram quase obrigações para quem deseja grandes chances no mercado cinematográfico. Muitas vezes, essa busca pela fama leva a loucuras e atitudes inacreditáveis que tem como único objetivo trazer reconhecimento. Essa necessidade de obter sucesso e ser adorado é o tema central de Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), líder de indicações em todos os prêmios do ano.

     Na história, Riggan Thomson (Michael Keaton) é um ator que fez muito sucesso quando interpretou o super-herói e ícone cultural Birdman. Adorado pelo público, mas odiado pela crítica, que não se impressionava com o papel do astro, Thomson decidiu mudar os rumos de sua carreira ao recusar participar de um quarto filme com o personagem que o consagrou. Após isso, toda sua vida profissional entrou em crise e o ator nunca mais obteve reconhecimento e fama como antes. Porém, Riggan vai tentar dar a volta por cima sendo diretor, roteirista e estrela de um texto que está adaptando para a Broadway. As chances de chegar ao topo novamente são consideráveis, mas o ex-Birdman terá que lidar com diversos problemas, incluindo um complicado elenco, a problemática relação com a filha, Sam (Emma Stone), o ganancioso agente Brandon (Zach Galifianakis), além de uma estranha voz que parece dominar sua mente.

     Para quem conhece a carreira de Michael Keaton, é impossível não comparar a vida real do ator com o filme dirigido e roteirizado por Alejandro González Iñarritu. Inicialmente, a escolha do americano para viver o super-herói Batman nos cinemas foi odiada pelos fãs, que chegaram a fazer um abaixo-assinado para o impedir de estrelar a produção. Porém, o diretor Tim Burton insistiu e provou que Keaton era excelente para o personagem, o mais marcante de sua carreira até hoje. Michael, entretanto, era um ator mais focado em comédias, gênero em que continuou investindo bastante. Uma pena que suas escolhas, em geral, não tenham sido muito boas, o que o deixou meio esquecido pela mídia.

     Assim como Riggan Thomson, o antigo homem-morcego também busca voltar aos holofotes, o que já esta conseguindo devido a atuação magnífica que faz. Michael Keaton se entrega de corpo e alma ao papel do perturbado protagonista em uma interpretação digna de premiações. O personagem é a pura personificação da eterna busca de diversas pessoas pela fama e glória, seguindo o pensamento de que, sem elas, nada mais importa. Cheio de problemas psicológicos, Riggan vive tendo momentos de loucura relacionados ao Birdman, quando "voa pela cidade" ou "move objetos com o poder da mente".

     O roteiro não poupa críticas a Hollywood e a maneira que toda a indústria do entretenimento funciona, com beleza e carisma sendo mais valorizados do que o talento em si. O protagonista é o grande representante dessa busca desesperada por reconhecimento, mas cada um dos coadjuvantes também é uma parte do sistema. Mike Shiner (Edward Norton) é o típico ator que acredita poder fazer o que quiser e quando quiser apenas porque é rico e famoso. Brandon é o agente que sempre busca ganhar dinheiro em cima de qualquer situação. Sam é um resultado da convivência com esse mundo de obsessões, uma jovem sem rumo em razão da falta de atenção do pai. As personagens de Naomi Watts e Andrea Riseborough podem não possuir uma característica tão marcante, mas tem considerável importância na trama.

     Birdman não precisaria nem de uma boa história para se tornar um filme importante, tendo em vista a espetacular parte técnica da produção. Com exceção do início, o longa inteiro foi editado como plano sequência, sendo muito difícil apontar onde estão os cortes diante de tamanha qualidade. Assim, o espectador é conduzido aos bastidores de um teatro da Broadway, observando de forma quase escondida as intrigas que acontecem nos corredores do espetáculo. Toda essa montagem ao ritmo de uma trilha sonora composta apenas por bateria, que consegue se encaixar perfeitamente com cada momento.

     Com um elenco fantástico, diálogos cheios de sarcasmo e um ótimo roteiro, Birdman é, imediatamente, um clássico. O grande favorito do Oscar apresenta uma crítica que, mesmo tendo Hollywood como maior alvo, atinge diretamente as mídias de entretenimento do mundo inteiro. Apesar de também ser chamado de A Inesperada Virtude da Ignorância, o que não falta a Inãrritu é conhecimento para fazer uma obra-prima. Certamente, um dos melhores filmes do ano.

Por: Vitor Pontes

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

O Jogo da Imitação - Crítica

Nota: 7

Título: O Jogo da Imitação (The Imitation Game)
Gênero: Biografia, Drama
Nacionalidade: Reino Unido, EUA
Ano de produção: 2014
Estreia no Brasil: 05 de fevereiro de 2015
Duração: 114 minutos
Classificação indicativa: 12 anos
Direção: Morten Tyldum
Roteiro: Graham Moore (Obra original de Andrew Hodges)
Elenco: Benedict Cumberbatch, Keira Knightley, Matthew Goode, Mark Strong, Charles Dance, Rory Kinnear, Allen Leech, Matthew Beard


     Em meio a onda de biografias que vem chegando aos cinemas nessa temporada de premiações, O Jogo da Imitação é uma das obras mais aguardadas, afinal, foram 8 indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Roteiro Adaptado. Porém, mais do que pelo reconhecimento da academia, a obra chama muita atenção devido a figura que decide retratar: Alan Turing, britânico que foi essencial para a vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial, embora muitos não façam ideia da importância dele, até porque sua verdadeira história só foi revelada muitos anos depois.

   Nascido 1912 na cidade de Londres, Turing (Benedict Cumberbatch) é reconhecido, principalmente, como matemático, mas também foi criptoanalista, lógico, filósofo, cientista da computação e biólogo, ou seja, um gênio completo. Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo britânico reuniu uma equipe de grandes mentes da época, incluindo Alan, para uma missão secreta e de grande prioridade: decifrar Enigma, o código utilizado pelos alemães para enviar mensagens a suas tropas e planejar ataques aos inimigos, considerado, praticamente, impossível de ser quebrado. Embora tente resolver de outras formas no início, Turing acredita que a solução seria construir uma máquina para analisar o sistema dos códigos nazistas (equipamento que acabaria se tornando um dos primeiros projetos de computadores da história).

     Gênio? Obviamente. Um dos maiores cientistas de todos os tempos? Com certeza. Porém, nem isso era suficiente contra o sistema de leis da Inglaterra. Atualmente, o preconceito ainda existe, mas, na época, era muito pior. Ser homossexual era considerado um crime grave no país. Alan Turing sofreu durante muitos anos tendo que esconder seus verdadeiros sentimentos, o que teve grandes consequências em sua saúde mental.

     O protagonista é apresentado, claramente, como um dos nomes mais inteligentes de seu tempo, mas o roteiro destaca quantos defeitos de personalidade o matemático possuía, sendo arrogante e extremamente narcisista. Alan Turing afirmava preferir trabalhar sozinho para evitar que os erros de terceiros atrapalhassem seu desempenho. Apenas isso já define bem o quão insensível o personagem poderia ser. Mas, o britânico também acaba passando a imagem de um homem solitário e melancólico, demonstrando que era muito mais do que aparentava.

     O roteiro se divide em três momentos distintos, apresentados de forma não linear: a infância de Turing, o período em que esta trabalhando na resolução da Enigma e os anos após a guerra, quando precisa enfrentar os problemas envolvendo sua sexualidade. A parte da juventude de Alan pode não ser tão desenvolvida, mas ajuda a introduzir um pouco sobre a questão da homossexualidade do protagonista. Já no último momento, acontece a cena mais memorável do longa, quando o personagem fala sobre o tal Jogo da Imitação, uma discussão sobre as diferenças entre as decisões morais de um homem e de uma máquina.

     A reconstrução da época é muito detalhada, com a produção chegando a utilizar verdadeiras máquinas da Segunda Guerra Mundial para adicionar mais realismo aos cenários. Desde as construções, passando por carros e roupas, a qualidade e o esforço da equipe técnica são claros e dignos de prêmios.

     Embora tenha tantas qualidades, O Jogo da Imitação não esconde que é um filme feito para o Oscar. Vários momentos são previsíveis, as clássicas frases de efeito motivacionais, que já marcavam presença nos trailers, estão por lá e a obra apresenta a clara intenção de emocionar, o que consegue fazer, mas poderia ter resultados ainda melhores se não apelasse tanto para o sentimentalismo em alguns momentos. É o tipo de produção que as premiações amam e sempre elogiam. Além disso, a direção do norueguês Morten Tyldum não é destaque, com planos simples e típicos do gênero.

     Benedict Cumberbatch demonstra todo o seu grande talento na melhor interpretação da carreira até agora. O ator é muito conhecido pela série Sherlock, cujo protagonista apresenta uma personalidade narcisista e um leve humor inteligente, então, não é difícil para ele absorver esse lado de Turing. Porém, Cumberbatch apresenta um sentimentalismo e um amor pelo personagem impressionantes, se dedicando como poucos fazem a uma produção. Entre os coadjuvantes, apesar de vários nomes conhecidos, o único grande destaque acaba ficando para Keira Knightley. em uma atuação simples, mas que se encaixa muito bem com seu sincero papel.

     Competente e muito bem ambientado, O Jogo da Imitação é um ótimo filme. Emociona, consegue manter o interesse e apresenta um protagonista interpretado de forma fantástica, porém, é uma obra que segue a velha fórmula das grande produções. Apesar disso, ainda possui um saldo muito positivo. Vale a pena conferir um pouco sobre a vida de um dos gênios mais incompreendidos do último século e toda a história da humanidade.

Por: Vitor Pontes

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A Teoria de Tudo - Crítica

Nota: 8

Título: A Teoria de Tudo (The Theory of Everything)
Gênero: Biografia, Drama, Romance
Nacionalidade: Reino Unido
Ano de produção: 2014
Estreia no Brasil: 29 de janeiro de 2015
Duração: 123 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Direção: James Marsh
Roteiro: Anthony McCarten (Obra original de Jane Hawking)
Elenco: Eddie Redmayne, Felicity Jones, Tom Prior, Charlie Cox, Harry Lloyd, David Thewlis, Thomas Morrison, Emily Watson, Simon McBurney, Charlotte Hope


     No ano passado, o Desafio do Balde de Gelo (Ice Bucket Challenge, no original) se tornou um sucesso, principalmente, em razão das diversas celebridades que o realizaram. Embora as origens dessa campanha tenham ficado difíceis de definir devido as proporções alcançadas, ela tinha como grande objetivo promover a conscientização sobre a Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA). A doença neurodegenerativa progressiva ataca os neurônios motores, o que leva a perda do controle de movimentos voluntários dos músculos. Lou Gehrig, jogador de baseball dos EUA, foi um dos primeiros famosos a desenvolve-lá, o que fez com que a doença também ficasse conhecida por seu nome. Apesar de fatal, um homem já resiste a essa situação por 52 anos, tendo descoberto o problema quando tinha apenas 21. É só falar que ele anda de cadeira de rodas e possui uma voz robótica que todos já sabem de quem se trata: Stephen Hawking, físico teórico, cosmólogo e, simplesmente, um dos maiores gênios da atualidade.

     A Teoria de Tudo, um dos grandes nomes da temporada de premiações, tendo 5 indicações ao Oscar, retrata um pouco da vida desse grande cientista, responsável por algumas das mais importantes pesquisas já realizadas sobre buracos negros. Baseado no livro homônimo escrito por Jane Hawking, ex-esposa de Stephen, o filme destaca o amor entre os dois e como a doença afetou as relações do jovem britânico com o mundo conforme o tempo passava e sua situação ia ficando cada vez pior.

     Embora tenha sido vendido pelos trailers como uma obra sobre a vida inteira de Stephen Hawking, desde o início já é possível perceber que o foco esta no romance do cientista com Jane Wilde (sobrenome de quando ainda era solteira). O início do relacionamento entre eles é apresentado de forma rápida e sem muitas explicações, mas a relação vai sendo desenvolvida aos poucos de forma sensível e muito convincente.

     Logo, entra em cena a terrível doença que o protagonista esta desenvolvendo, o que, inicialmente, não parece afetar o clima do casal. Porém, conforme a situação fica mais difícil, a relação vai se desgastando até virar quase uma história trágica. O roteiro apresenta muito bem até os acontecimentos mais polêmicos, incluindo uma espécie de "triângulo amoroso". Apesar disso, o desenvolvimento é tão bom que acaba sendo impossível "escolher um lado" para defender. Como culpar Stephen pela doença que o impediu de ajudar e cuidar da esposa? Como culpar Jane por se sentir péssima em meio a uma situação tão complicada quanto essa?

     Certamente, seria interessante se a história apresentasse mais sobre a carreira profissional de Hawking, explicando sua teoria sobre buracos negros, e, principalmente, se tivesse destacado a polêmica questão do conhecido ateísmo do cientista. Até existem alguns momentos que falam sobre essa última parte, mas apenas relacionando o assunto ao fato de Jane ser religiosa. Embora a presença desses temas pudesse acrescentar mais qualidade ao filme, suas ausências não chegam a ser um defeito, já que o romance é muito bem desenvolvido.

     Mesmo não sendo brilhante, a direção de James Marsh é segura e consegue aproveitar bem os momentos mais emocionantes, sem utilizar clichês. Destaque para a fotografia e a trilha sonora, que se encaixam perfeitamente em cada situação apresentada.

     Definitivamente, o jovem e talentoso Eddie Redmayne é o grande nome para as premiações de Melhor Ator na temporada. Tendo vencido o Globo de Ouro e estando indicado ao Oscar pelo papel, o britânico esta impecável, trabalhando detalhadamente todas as partes do desenvolvimento da doença de Stephen Hawking, desde o jeito de andar e falar até o movimento de cada dedo da mão. A atuação fica ainda mais impressionante após o personagem perder a capacidade de falar, quando o olhar começa a fazer ainda mais diferença para o entendimento das emoções. A maior prova de que os elogios são merecidos esta na declaração do verdadeiro Stephen, que afirmou sentir que estava vendo ele mesmo em cena durante o filme.

     Apesar da imensa qualidade do ator, Felicity Jones também demonstra muito talento e não fica com menos destaque devido ao companheiro de elenco. Sua atuação como Jane é extremamente sensível e convincente, passando do amor inicial ao perceptível desgaste no final do filme. A atriz tem um olhar e gestos marcantes, que conseguem fazer quem assiste sentir todas as dificuldades pelas quais a personagem passou.

     Embora o foco no romance possa decepcionar alguns, A Teoria de Tudo é uma produção digna do grande nome ao qual ela faz homenagem. Stephen Hawking ainda esta em atividade e não pretende se aposentar, podendo ficar ainda mais marcado na história da ciência. Porém, o lado profissional do físico e cosmólogo pode ser facilmente conhecido através de uma simples pesquisa na internet, o que torna o filme muito marcante, afinal, é a rara chance de podermos conhecer detalhadamente o lado pessoal de uma das figuras mais importantes de nosso tempo.

Por: Vitor Pontes