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terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) - Crítica

Nota: 10

Título: Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) - Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance)
Gênero: Comédia, Drama
Nacionalidade: EUA
Ano de produção: 2014
Estreia no Brasil: 29 de janeiro de 2015
Duração: 119 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Direção: Alejandro González Iñarritu
Roteiro: Alejandro González Iñarritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris, Armando Bo
Elenco: Michael Keaton, Edward Norton, Emma Stone, Zach Galifianakis, Andrea Riseborough, Naomi Watts, Amy Ryan, Damian Young, Merritt Wever, Lindsay Duncan


     Em Hollywood, não basta ter talento, é necessário saber "vender seu peixe". Você pode ser um dos atores, produtores ou diretores mais geniais do mercado e ter grande potencial para se tornar um cineasta de respeito, mas precisa possuir uma imagem de destaque. Ser carismático, ter uma boa aparência e seguir determinadas condutas na vida pessoal viraram quase obrigações para quem deseja grandes chances no mercado cinematográfico. Muitas vezes, essa busca pela fama leva a loucuras e atitudes inacreditáveis que tem como único objetivo trazer reconhecimento. Essa necessidade de obter sucesso e ser adorado é o tema central de Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), líder de indicações em todos os prêmios do ano.

     Na história, Riggan Thomson (Michael Keaton) é um ator que fez muito sucesso quando interpretou o super-herói e ícone cultural Birdman. Adorado pelo público, mas odiado pela crítica, que não se impressionava com o papel do astro, Thomson decidiu mudar os rumos de sua carreira ao recusar participar de um quarto filme com o personagem que o consagrou. Após isso, toda sua vida profissional entrou em crise e o ator nunca mais obteve reconhecimento e fama como antes. Porém, Riggan vai tentar dar a volta por cima sendo diretor, roteirista e estrela de um texto que está adaptando para a Broadway. As chances de chegar ao topo novamente são consideráveis, mas o ex-Birdman terá que lidar com diversos problemas, incluindo um complicado elenco, a problemática relação com a filha, Sam (Emma Stone), o ganancioso agente Brandon (Zach Galifianakis), além de uma estranha voz que parece dominar sua mente.

     Para quem conhece a carreira de Michael Keaton, é impossível não comparar a vida real do ator com o filme dirigido e roteirizado por Alejandro González Iñarritu. Inicialmente, a escolha do americano para viver o super-herói Batman nos cinemas foi odiada pelos fãs, que chegaram a fazer um abaixo-assinado para o impedir de estrelar a produção. Porém, o diretor Tim Burton insistiu e provou que Keaton era excelente para o personagem, o mais marcante de sua carreira até hoje. Michael, entretanto, era um ator mais focado em comédias, gênero em que continuou investindo bastante. Uma pena que suas escolhas, em geral, não tenham sido muito boas, o que o deixou meio esquecido pela mídia.

     Assim como Riggan Thomson, o antigo homem-morcego também busca voltar aos holofotes, o que já esta conseguindo devido a atuação magnífica que faz. Michael Keaton se entrega de corpo e alma ao papel do perturbado protagonista em uma interpretação digna de premiações. O personagem é a pura personificação da eterna busca de diversas pessoas pela fama e glória, seguindo o pensamento de que, sem elas, nada mais importa. Cheio de problemas psicológicos, Riggan vive tendo momentos de loucura relacionados ao Birdman, quando "voa pela cidade" ou "move objetos com o poder da mente".

     O roteiro não poupa críticas a Hollywood e a maneira que toda a indústria do entretenimento funciona, com beleza e carisma sendo mais valorizados do que o talento em si. O protagonista é o grande representante dessa busca desesperada por reconhecimento, mas cada um dos coadjuvantes também é uma parte do sistema. Mike Shiner (Edward Norton) é o típico ator que acredita poder fazer o que quiser e quando quiser apenas porque é rico e famoso. Brandon é o agente que sempre busca ganhar dinheiro em cima de qualquer situação. Sam é um resultado da convivência com esse mundo de obsessões, uma jovem sem rumo em razão da falta de atenção do pai. As personagens de Naomi Watts e Andrea Riseborough podem não possuir uma característica tão marcante, mas tem considerável importância na trama.

     Birdman não precisaria nem de uma boa história para se tornar um filme importante, tendo em vista a espetacular parte técnica da produção. Com exceção do início, o longa inteiro foi editado como plano sequência, sendo muito difícil apontar onde estão os cortes diante de tamanha qualidade. Assim, o espectador é conduzido aos bastidores de um teatro da Broadway, observando de forma quase escondida as intrigas que acontecem nos corredores do espetáculo. Toda essa montagem ao ritmo de uma trilha sonora composta apenas por bateria, que consegue se encaixar perfeitamente com cada momento.

     Com um elenco fantástico, diálogos cheios de sarcasmo e um ótimo roteiro, Birdman é, imediatamente, um clássico. O grande favorito do Oscar apresenta uma crítica que, mesmo tendo Hollywood como maior alvo, atinge diretamente as mídias de entretenimento do mundo inteiro. Apesar de também ser chamado de A Inesperada Virtude da Ignorância, o que não falta a Inãrritu é conhecimento para fazer uma obra-prima. Certamente, um dos melhores filmes do ano.

Por: Vitor Pontes

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

O Jogo da Imitação - Crítica

Nota: 7

Título: O Jogo da Imitação (The Imitation Game)
Gênero: Biografia, Drama
Nacionalidade: Reino Unido, EUA
Ano de produção: 2014
Estreia no Brasil: 05 de fevereiro de 2015
Duração: 114 minutos
Classificação indicativa: 12 anos
Direção: Morten Tyldum
Roteiro: Graham Moore (Obra original de Andrew Hodges)
Elenco: Benedict Cumberbatch, Keira Knightley, Matthew Goode, Mark Strong, Charles Dance, Rory Kinnear, Allen Leech, Matthew Beard


     Em meio a onda de biografias que vem chegando aos cinemas nessa temporada de premiações, O Jogo da Imitação é uma das obras mais aguardadas, afinal, foram 8 indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Roteiro Adaptado. Porém, mais do que pelo reconhecimento da academia, a obra chama muita atenção devido a figura que decide retratar: Alan Turing, britânico que foi essencial para a vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial, embora muitos não façam ideia da importância dele, até porque sua verdadeira história só foi revelada muitos anos depois.

   Nascido 1912 na cidade de Londres, Turing (Benedict Cumberbatch) é reconhecido, principalmente, como matemático, mas também foi criptoanalista, lógico, filósofo, cientista da computação e biólogo, ou seja, um gênio completo. Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo britânico reuniu uma equipe de grandes mentes da época, incluindo Alan, para uma missão secreta e de grande prioridade: decifrar Enigma, o código utilizado pelos alemães para enviar mensagens a suas tropas e planejar ataques aos inimigos, considerado, praticamente, impossível de ser quebrado. Embora tente resolver de outras formas no início, Turing acredita que a solução seria construir uma máquina para analisar o sistema dos códigos nazistas (equipamento que acabaria se tornando um dos primeiros projetos de computadores da história).

     Gênio? Obviamente. Um dos maiores cientistas de todos os tempos? Com certeza. Porém, nem isso era suficiente contra o sistema de leis da Inglaterra. Atualmente, o preconceito ainda existe, mas, na época, era muito pior. Ser homossexual era considerado um crime grave no país. Alan Turing sofreu durante muitos anos tendo que esconder seus verdadeiros sentimentos, o que teve grandes consequências em sua saúde mental.

     O protagonista é apresentado, claramente, como um dos nomes mais inteligentes de seu tempo, mas o roteiro destaca quantos defeitos de personalidade o matemático possuía, sendo arrogante e extremamente narcisista. Alan Turing afirmava preferir trabalhar sozinho para evitar que os erros de terceiros atrapalhassem seu desempenho. Apenas isso já define bem o quão insensível o personagem poderia ser. Mas, o britânico também acaba passando a imagem de um homem solitário e melancólico, demonstrando que era muito mais do que aparentava.

     O roteiro se divide em três momentos distintos, apresentados de forma não linear: a infância de Turing, o período em que esta trabalhando na resolução da Enigma e os anos após a guerra, quando precisa enfrentar os problemas envolvendo sua sexualidade. A parte da juventude de Alan pode não ser tão desenvolvida, mas ajuda a introduzir um pouco sobre a questão da homossexualidade do protagonista. Já no último momento, acontece a cena mais memorável do longa, quando o personagem fala sobre o tal Jogo da Imitação, uma discussão sobre as diferenças entre as decisões morais de um homem e de uma máquina.

     A reconstrução da época é muito detalhada, com a produção chegando a utilizar verdadeiras máquinas da Segunda Guerra Mundial para adicionar mais realismo aos cenários. Desde as construções, passando por carros e roupas, a qualidade e o esforço da equipe técnica são claros e dignos de prêmios.

     Embora tenha tantas qualidades, O Jogo da Imitação não esconde que é um filme feito para o Oscar. Vários momentos são previsíveis, as clássicas frases de efeito motivacionais, que já marcavam presença nos trailers, estão por lá e a obra apresenta a clara intenção de emocionar, o que consegue fazer, mas poderia ter resultados ainda melhores se não apelasse tanto para o sentimentalismo em alguns momentos. É o tipo de produção que as premiações amam e sempre elogiam. Além disso, a direção do norueguês Morten Tyldum não é destaque, com planos simples e típicos do gênero.

     Benedict Cumberbatch demonstra todo o seu grande talento na melhor interpretação da carreira até agora. O ator é muito conhecido pela série Sherlock, cujo protagonista apresenta uma personalidade narcisista e um leve humor inteligente, então, não é difícil para ele absorver esse lado de Turing. Porém, Cumberbatch apresenta um sentimentalismo e um amor pelo personagem impressionantes, se dedicando como poucos fazem a uma produção. Entre os coadjuvantes, apesar de vários nomes conhecidos, o único grande destaque acaba ficando para Keira Knightley. em uma atuação simples, mas que se encaixa muito bem com seu sincero papel.

     Competente e muito bem ambientado, O Jogo da Imitação é um ótimo filme. Emociona, consegue manter o interesse e apresenta um protagonista interpretado de forma fantástica, porém, é uma obra que segue a velha fórmula das grande produções. Apesar disso, ainda possui um saldo muito positivo. Vale a pena conferir um pouco sobre a vida de um dos gênios mais incompreendidos do último século e toda a história da humanidade.

Por: Vitor Pontes

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A Teoria de Tudo - Crítica

Nota: 8

Título: A Teoria de Tudo (The Theory of Everything)
Gênero: Biografia, Drama, Romance
Nacionalidade: Reino Unido
Ano de produção: 2014
Estreia no Brasil: 29 de janeiro de 2015
Duração: 123 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Direção: James Marsh
Roteiro: Anthony McCarten (Obra original de Jane Hawking)
Elenco: Eddie Redmayne, Felicity Jones, Tom Prior, Charlie Cox, Harry Lloyd, David Thewlis, Thomas Morrison, Emily Watson, Simon McBurney, Charlotte Hope


     No ano passado, o Desafio do Balde de Gelo (Ice Bucket Challenge, no original) se tornou um sucesso, principalmente, em razão das diversas celebridades que o realizaram. Embora as origens dessa campanha tenham ficado difíceis de definir devido as proporções alcançadas, ela tinha como grande objetivo promover a conscientização sobre a Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA). A doença neurodegenerativa progressiva ataca os neurônios motores, o que leva a perda do controle de movimentos voluntários dos músculos. Lou Gehrig, jogador de baseball dos EUA, foi um dos primeiros famosos a desenvolve-lá, o que fez com que a doença também ficasse conhecida por seu nome. Apesar de fatal, um homem já resiste a essa situação por 52 anos, tendo descoberto o problema quando tinha apenas 21. É só falar que ele anda de cadeira de rodas e possui uma voz robótica que todos já sabem de quem se trata: Stephen Hawking, físico teórico, cosmólogo e, simplesmente, um dos maiores gênios da atualidade.

     A Teoria de Tudo, um dos grandes nomes da temporada de premiações, tendo 5 indicações ao Oscar, retrata um pouco da vida desse grande cientista, responsável por algumas das mais importantes pesquisas já realizadas sobre buracos negros. Baseado no livro homônimo escrito por Jane Hawking, ex-esposa de Stephen, o filme destaca o amor entre os dois e como a doença afetou as relações do jovem britânico com o mundo conforme o tempo passava e sua situação ia ficando cada vez pior.

     Embora tenha sido vendido pelos trailers como uma obra sobre a vida inteira de Stephen Hawking, desde o início já é possível perceber que o foco esta no romance do cientista com Jane Wilde (sobrenome de quando ainda era solteira). O início do relacionamento entre eles é apresentado de forma rápida e sem muitas explicações, mas a relação vai sendo desenvolvida aos poucos de forma sensível e muito convincente.

     Logo, entra em cena a terrível doença que o protagonista esta desenvolvendo, o que, inicialmente, não parece afetar o clima do casal. Porém, conforme a situação fica mais difícil, a relação vai se desgastando até virar quase uma história trágica. O roteiro apresenta muito bem até os acontecimentos mais polêmicos, incluindo uma espécie de "triângulo amoroso". Apesar disso, o desenvolvimento é tão bom que acaba sendo impossível "escolher um lado" para defender. Como culpar Stephen pela doença que o impediu de ajudar e cuidar da esposa? Como culpar Jane por se sentir péssima em meio a uma situação tão complicada quanto essa?

     Certamente, seria interessante se a história apresentasse mais sobre a carreira profissional de Hawking, explicando sua teoria sobre buracos negros, e, principalmente, se tivesse destacado a polêmica questão do conhecido ateísmo do cientista. Até existem alguns momentos que falam sobre essa última parte, mas apenas relacionando o assunto ao fato de Jane ser religiosa. Embora a presença desses temas pudesse acrescentar mais qualidade ao filme, suas ausências não chegam a ser um defeito, já que o romance é muito bem desenvolvido.

     Mesmo não sendo brilhante, a direção de James Marsh é segura e consegue aproveitar bem os momentos mais emocionantes, sem utilizar clichês. Destaque para a fotografia e a trilha sonora, que se encaixam perfeitamente em cada situação apresentada.

     Definitivamente, o jovem e talentoso Eddie Redmayne é o grande nome para as premiações de Melhor Ator na temporada. Tendo vencido o Globo de Ouro e estando indicado ao Oscar pelo papel, o britânico esta impecável, trabalhando detalhadamente todas as partes do desenvolvimento da doença de Stephen Hawking, desde o jeito de andar e falar até o movimento de cada dedo da mão. A atuação fica ainda mais impressionante após o personagem perder a capacidade de falar, quando o olhar começa a fazer ainda mais diferença para o entendimento das emoções. A maior prova de que os elogios são merecidos esta na declaração do verdadeiro Stephen, que afirmou sentir que estava vendo ele mesmo em cena durante o filme.

     Apesar da imensa qualidade do ator, Felicity Jones também demonstra muito talento e não fica com menos destaque devido ao companheiro de elenco. Sua atuação como Jane é extremamente sensível e convincente, passando do amor inicial ao perceptível desgaste no final do filme. A atriz tem um olhar e gestos marcantes, que conseguem fazer quem assiste sentir todas as dificuldades pelas quais a personagem passou.

     Embora o foco no romance possa decepcionar alguns, A Teoria de Tudo é uma produção digna do grande nome ao qual ela faz homenagem. Stephen Hawking ainda esta em atividade e não pretende se aposentar, podendo ficar ainda mais marcado na história da ciência. Porém, o lado profissional do físico e cosmólogo pode ser facilmente conhecido através de uma simples pesquisa na internet, o que torna o filme muito marcante, afinal, é a rara chance de podermos conhecer detalhadamente o lado pessoal de uma das figuras mais importantes de nosso tempo.

Por: Vitor Pontes

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Corações de Ferro - Crítica

Nota: 7

Título: Corações de Ferro (Fury)
Gênero: Guerra, Drama, Ação
Nacionalidade: EUA, Reino Unido
Ano de produção: 2014
Estreia no Brasil: 05 de fevereiro de 2015
Duração: 135 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Direção: David Ayer
Roteiro: David Ayer
Elenco: Brad Pitt, Logan Lerman, Shia LaBeouf, Michael Peña, Jon Bernthal, Jim Parrack, Jason Isaacs, Brad William Henke, Scott Eastwood, Xavier Samuel


     A Segunda Guerra Mundial já rendeu e, certamente, continuará rendendo inúmeras adaptações para os cinemas. Entre obras marcantes e fracassos, um dos períodos mais violentos da história da humanidade consegue ser base para histórias com emoção, suspense, ação e aventura, podendo gerar uma obra extremamente completa. David Ayer, conhecido pelos roteiros de filmes como Velozes e Furiosos e Dia de Treinamento, decide fugir um pouco de suas típicas produções sobre policiais e criminosos para investir na primeira obra de época, apenas o quarto longa de sua curta carreira como diretor. Assim, temos Corações de Ferro, um violento retrato da Segunda Guerra Mundial.

     A história se passa no ano de 1945, já no final do conflito, e mostra um grupo de americanos em plena Alemanha na missão de matar o maior número possível de soldados nazistas. A equipe é liderada pelo capitão Wardaddy (Brad Pitt) e ainda conta com o novato Norman (Logan Lerman), o religioso Bible (Shia LaBeouf), o inteligente Gordo (Michael Penã) e o explosivo Grady (Jon Bernthal). Mesmo estando em menor número, eles contam com muita força e coragem para enfrentar qualquer inimigo que apareça.

     Logo de início, já somos introduzidos a cenários destruídos e sujos, que representam muito bem o clima da guerra. A violência do filme demonstra um grande realismo e o longa tem destaque ao apresentar fatos que raramente são explorados pelo cinema relacionado a época, mostrando, por exemplo, os suicídios cometidos pelos desesperados e o enforcamento de alemães que se recusavam a lutar pelos nazistas. Além disso, todo o resto da equipe técnica merece elogios, principalmente na parte sonora, com uma trilha que consegue expressar bem a emoção de cada cena.

     O ponto alto de Corações de Ferro esta em seu elenco formado por excelentes atores. É notável a dedicação de cada um para seu papel, o que faz com que os constantes diálogos entre eles se tornem muito interessantes. Os destaques maiores ficam para Brad Pitt, que acaba por fazer o que parece uma versão mais sombria de seu protagonista em Bastardos Inglórios, e Logan Lerman, o jovem inexperiente com o qual o espectador pode se identificar mais facilmente, já que o garoto ainda sofre com dilemas morais por não conhecer os horrores da guerra. Jon Bernthal também merece elogios, interpretando um personagem insano e detestável, que, aos poucos, demonstra um pouco mais de profundidade.

     A experiência, até então muito boa, acaba tendo uma grande queda na qualidade em sua parte final, quando o roteiro decide transformar os protagonistas em grandes hérois, a pior escolha possível para a história. O grupo isolado enfrentando um número imenso de soldados nazistas acabou ficando extremamente forçado para uma obra que se destacava pelo realismo e pela escolha em dar maior ênfase a preparação para as batalhas do que aos combates em si.

     Os personagens nunca são apresentados como grandes defensores da honra e de sua pátria, o que acaba deixando difícil compreender a decisão do grupo em ir contra centenas de inimigos. Além disso, o clímax é longo e cansativo, tendo quase meia hora de duração.

    Corações de Ferro não é a produção marcante que prometia ser, mas consegue oferecer bons momentos através de personagens carismáticos e uma boa ambientação. É triste que o filme acabe caminhando para um lado heróico e exagerado a partir de certo momento. Caso continuasse seguindo a proposta inicial, teria chances de ser uma obra mais memorável.

Por: Vitor Pontes

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Leviatã - Crítica

Nota: 8

Título: Leviatã (Leviathan)
Gênero: Drama
Nacionalidade: Rússia
Ano de produção: 2014
Estreia no Brasil: 15 de janeiro de 2015
Duração: 141 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Direção: Andrey Zviaguintsev
Roteiro: Andrey Zviaguintsev, Oleg Negin
Elenco: Alexeï Serebriakov, Elena Lyadova, Vladimir Vdovitchenkov, Roman Madianov, Anna Ukolova, Sergey Pokhoadaev, Kristina Pakarina


     Antes de falar sobre o filme em si, é necessário conhecer os aspectos históricos, filosóficos e religiosos que envolvem Leviatã, produção russa vencedora do Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e grande favorita ao Oscar nessa categoria. O título se refere ao monstro marinho mitológico, muito temido pelos navegantes durante a Idade Média. A criatura foi citada pela primeira vez no Antigo Testamento da Bíblia, no livro de Jó, capítulo 41. Durante muito tempo, foi considerado pela Igreja Católica como um demônio que seria a representação física da inveja, um dos sete pecados capitais.

     Leviatã é, também, o título de um livro do filósofo Thomas Hobbes, publicado em 1651, com o nome fazendo referência ao monstro bíblico. A obra é um estudo da sociedade e de suas formas de governo, sendo um dos mais antigos textos a explicar o conceito de contrato social. Essa teoria defende, resumidamente falando, a necessidade das pessoas abrirem mão de certos direitos para buscar a ordem social, assim, entregando o poder para uma autoridade ou regime político. O Leviatã que dá nome ao livro seria o soberano responsável por manter a paz e a ordem.

     A partir desses conhecimentos, já podemos começar a entender melhor o roteiro do filme. Na história, ambientada em uma península às margens do Mar de Barents, no noroeste da Rússia, o pai de família Kolia (Alexeï Serebriakov) luta na justiça contra o corrupto prefeito da cidade, Vadim (Roman Madianov), que deseja tomar suas terras, mentindo sobre os benefícios que o local teria para cidade com a intenção de obter vantagem no processo. Kolia conta com a ajuda do velho amigo e advogado Dmitri (Vladimir Vdovitchenkov), mas terá que lidar com outros problemas que envolvem sua família, principalmente a esposa Lilya (Elena Lyadova).

      O filme sofreu várias críticas na Rússia devido as fortes críticas ao governo presentes na obra, como já se pode perceber apenas pela sinopse. Porém, é interessante ver como a situação apresentada no longa poderia se encaixar em diversos países por todo mundo, inclusive no Brasil, onde presenciamos os nossos políticos tendo grandes vantagens enquanto a população paga o preço por tudo que os governantes utilizam. Além disso, as críticas de Leviatã não são infundadas, pois todos sabem da enorme corrupção existente no país europeu.

     Nesse ponto, o que acaba por marcar muito é a cena em que Kolia, junto com amigos, decide praticar tiro ao alvo utilizando quadros de ex-governantes como alvos. Ainda há um momento no escritório do prefeito corrupto em que ele fala seus planos enquanto possui na parede uma moldura com o rosto de Vladimir Putin, atual presidente da Rússia.

      O filme funciona como uma espécie de recriação da parábola de Jó, fato que fica explícito durante um diálogo presente na parte final da produção. Assim, já é possível saber o grande sofrimento pelo qual o protagonista passará. Por essa razão, o clima é sempre triste, mas realista. Isso leva a uma grande análise sobre política, relações familiares e religião, alguns dos assuntos abordados na obra. Porém, cada tema é desenvolvido em uma espécie de bloco separado do longa, o que permite um maior aprofundamento, mas quebra um pouco do ritmo da história.

     A parte visual é um dos grandes méritos do filme e merece todos os elogios que esta recebendo. A relação entre homem e natureza é explícita, o que acaba trazendo belas cenas do ambiente. Os locais escuros e os destroços da região revelam mais sobre os problemas que surgem devido a presença dos seres humanos.

     A produção é cheia de simbolismos e acaba sendo representada pelo maior deles (literalmente): os ossos de baleia, que estão, inclusive, no cartaz do filme. Nada representa tão bem o poder de destruição que o homem possui, tanto sobre a natureza, quanto sobre seus semelhantes. Assim, embora demore um pouco para encaixar de vez o roteiro de longos 141 minutos, Leviatã apresenta uma forte crítica política e uma ótima mensagem sobre a decadência do ser humano. Certamente, é o grande favorito para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro desse ano.

Por: Vitor Pontes

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Grandes Olhos - Crítica

Nota: 6

Título: Grandes Olhos (Big Eyes)
Gênero: Drama, Biografia
Nacionalidade: EUA, Canadá
Ano de produção: 2014
Estreia no Brasil: 29 de janeiro de 2015
Duração: 106 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Direção: Tim Burton
Roteiro: Scott Alexander, Larry Karaszewski
Elenco: Amy Adams, Christoph Waltz, Krysten Ritter, Danny Huston, Jason Schwartzman, Terence Stamp, Madeleine Arthur, Delaney Raye, James Saito, Elisabetta Fantone


     Tim Burton sabe criar histórias fantásticas como poucos em toda a história da sétima arte. O autor de obras como Edward Mãos de Tesoura, Alice no País das Maravilhas, Batman e Os Fantasmas se Divertem consegue apresentar roteiros elaborados e interessantes, porém o visual de suas produções é sempre a primeira coisa que vem a mente quando se fala sobre sua carreira. Embora seja um grande mestre do cinema, seus últimos filmes não convenceram muito o público e a crítica. Assim, o diretor, produtor e, às vezes, roteirista, resolve investir em um longa bem diferente do estilo que esta acostumado, trazendo Grandes Olhos, adaptação de uma forte história real que foi marcante para o feminismo.

    Ambientado na década de 50, o roteiro tem como protagonista a pintora Margaret Keane (Amy Adams), que antes de se casar tinha o sobrenome Ulbrich. Após um relacionamento desastroso, ela foge com a filha para morar sozinha. Depois de um tempo, Margaret conhece o também pintor Walter Keane (Christoph Waltz), se casando com ele rapidamente para, assim, manter a guarda de sua filha. A pintora tem o costume de fazer obras retratando crianças com olhos grandes e tristes. Não acreditando que os quadros fariam sucesso por terem autoria de uma mulher, Walter decide apresentar as pinturas como suas, com a aprovação da esposa. Após anos vivendo com esse acordo, Margaret decide processar o marido para recuperar os direitos de suas obras.

     Uma história tão boa e importante como essa gera muita curiosidade em relação a personalidade dos protagonistas, trazendo vontade de descobrir o porquê da pintora ter aceitado essa situação durante tanto tempo. Porém, o desenvolvimento dos personagens é muito fraco e decepcionante. Parece que Margaret é definida apenas pela sua fragilidade e falta de confiança inexplicáveis, não tendo nenhuma outra grande característica de sua personalidade apresentada e sem nenhuma mínima explicação sobre seu passado. Com isso, a personagem só consegue ganhar um pouco de carisma através da relação que possui com a filha, que até tem seus momentos interessantes.

     O relacionamento de Margaret e Walter parece surgir do nada. Os dois se conhecem, ambos são pintores, começam a gostar um do outro e logo se casam. Depois de pouco tempo, toda a situação envolvendo o marido levar crédito pelas pinturas da esposa já esta acontecendo e, mesmo assim, ainda não conseguimos entender porque esse casamento realmente aconteceu. Um investimento maior no período em que eles se conheceram faria toda a diferença para o resultado final.

      O que realmente prende o espectador a história é a curiosidade em saber como ocorreu a mudança de pensamento que levou Margaret a buscar seus direitos. Isso também não é bem desenvolvido, sendo uma situação definida em poucos minutos, mas a cena do tribunal não deixa de empolgar e ser o melhor momento do filme. Além disso, a questão sobre a relevância dos quadros é outro ponto bom, apesar de pouco aproveitado.

     É interessante ver Tim Burton se afastando do estilo fantástico que esta acostumado a produzir. A reconstituição da época e a fotografia são belas, mas o longa não demonstra a ousadia e a criatividade esperada do diretor. O único momento que apresenta qualidade acima da média nessa questão é quando Margaret começa a ver pessoas com olhos grandes em um supermercado, devido a pressão que esta sofrendo do marido. Pouco para alguém da qualidade de Burton.

    A escolha do elenco demonstra ser um dos maiores acertos do longa. Amy Adams interpreta com facilidade uma personagem frágil, sabendo convencer em relação a delicadeza apresentada pela protagonista. Enquanto isso, Christoph Waltz faz o seu típico vilão sarcástico, embora acabe exagerando no humor em alguns momentos. O carisma dos ótimos atores auxilia muito a produção.

     No fim das contas, Grandes Olhos consegue ser um dos trabalhos mais diferentes da carreira de Tim Burton, mas falta inovação. Com um pouco de coragem do diretor, um roteiro e personagens mais desenvolvidos, poderia ser um filme marcante. Apesar de conseguir divertir em alguns momentos, é um desperdício do grande potencial de uma história tão interessante.

Por: Vitor Pontes

domingo, 25 de janeiro de 2015

Uma Aventura Lego - Crítica

Nota: 8

Título: Uma Aventura Lego (The Lego Movie)
Gênero: Animação, Aventura
Nacionalidade: EUA
Ano de produção: 2014
Estreia no Brasil: 07 de fevereiro de 2014
Duração: 100 minutos
Classificação indicativa: Livre
Direção: Phil Lord, Christopher Miller
Roteiro: Phil Lord, Christopher Miller
Elenco: Chris Pratt, Will Ferrell, Elizabeth Banks, Morgan Freeman, Will Arnett, Liam Neeson, Charlie Day, Alison Brie, Nick Offerman, Channing Tatum, Jonah Hill, Cobie Smulders, Dave Franco, Shaquille O'Neal


      Obviamente, a ideia de levar os brinquedos Lego para o cinema surgiu com o objetivo de alavancar as vendas do produto. As famosas peças de montar fizeram parte da infância de muitos adultos e ainda são um sucesso, estando presentes no armário de muitas crianças. Mesmo com as inúmeras possibilidades que algumas peças conseguem oferecer, fazer um filme sobre o brinquedo era uma difícil missão para Phil Lord e Christopher Miller, responsáveis pela animação Tá Chovendo Hambúrguer e pelas ótimas comédias adultas da franquia Anjos da Lei. Porém, mais uma vez, os diretores e roteiristas mostraram porque são nomes do momento em Hollywood, apresentando Uma Aventura Lego, um filme muito divertido tanto para crianças, quanto para adultos.

     Na história, completamente surtada, Emmet (Chris Pratt, na dublagem original) é um Lego comum, aparentemente sem nada de especial. Um dia, ele acaba encontrando a Peça da Resistência, desaparecida há muitos anos, sendo que, de acordo com a lenda, ela só poderia ser encontrada pelo grande criador do mundo. Assim, Emmet precisa se juntar a um grupo de brinquedos para impedir o presidente Sr. Negócios (Will Ferrell) de executar seu maligno plano, que consiste em colar todas as peças do universo.

    Logo de início, o roteiro surpreende ao apresentar uma forte crítica ao capitalismo, algo extremamente inesperado para uma animação. Emmet vive de acordo com um manual sobre "como ser feliz", assiste o único programa da televisão e só escuta a grudenta e popular música Tudo é Incrível (Everything is Awesome, no original). É claro que esse tom não permanece no filme inteiro, mas não deixa de ser marcante na produção.

      Uma das coisas que mais geravam curiosidade antes do lançamento do longa era como seria o visual. O cenário criado por Phil Lord e Christopher Miller segue o estilo nonsense característico da dupla, aproveitando ao máximo todas as possibilidades que os brinquedos oferecem. As cenas de ação e aventura são únicas, A forma como névoa, fogo, água e outros elementos são feitos é inovadora, misturando um movimento mecânico com a alta tecnologia utilizada nas animações dos personagens.

       O humor se aproveita do visual dos brinquedos para fazer muitas piadas com o próprio filme. As mãos em forma de gancho e o cabelo composto por uma única peça são exemplos de como a produção não esconde seu tom de autoparódia. Além disso, sobram referências a cultura pop graças aos personagens que a Lego tem licenciados. Assim, um Batman hilário entra em cena junto com outros hérois como Lanterna Verde, Mulher-Maravilha e Super-Homem. Ainda aparecem figuras muito variadas, passando por Gandalf, de Senhor dos Anéis, As Tartarugas Ninja, personagens de Star Wars, chegando até a Abraham Lincoln e Shaquille O'Neal. Há também uma ótima referência a De Volta Para o Futuro III.

      A dublagem brasileira é boa e agrada, apesar de não ser acima da média e ter problemas para traduzir certas piadas. Vale a pena conferir o filme com as vozes do elenco original, que possui nomes incríveis como Chris Pratt, Elizabeth Banks, Will Ferrell, Liam Nesson, Will Arnett, Morgan Freeman, Cobie Smulders, entre outros. Por exemplo, é interessante ver a intereção que o filme apresenta entre o Super-Homem e o Lanterna Verde, dublados por Channing Tatum e Jonah Hill, respectivamente, uma clara piada com o trabalho da dupla em Anjos da Lei.

     O roteiro ainda apresenta uma grande reviravolta no final, boa e emocionante, mas o filme acaba exagerando um pouco na mensagem "acredite em voce mesmo". Com isso, é encerrada um dos longas mais divertidos de 2014. Como Uma Aventura Lego ficou de fora da lista de melhores animações do Oscar? Difícil de explicar, afinal, poucos filmes apresentaram tanta diversão como esse no último ano.

Por: Vitor Pontes